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Cultura » O Ano em Israel

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Luiz Carlos Merten

01 Agosto 2007 | 19h39

Cumpri agora há pouco meu primeiro compromisso oficial como jurado do 7º Festival do Cinema Brasileiro de Israel. O evento desenrola-se em três cidades – Haifa, Tel-Aviv e Jerusalém. A abertura foi em Haifa, mas amanhã haverá outra inauguração, em Tel-Aviv, e uma terceira, na sexta, em Jerusalém. Deve ser o único evento ligado a cinema brasileiro que a Petrobrás não patrocina. Agora mesmo, oudoors espalhados imagino que pelo Brasil – tem um na esquina da Rua Henrique Schauman com Cardeal Arco-Verde, por onde passo todo dia a caminho do jornal – anunciando a parceria da Petrobrás com a Inffinito, em festivais que se realizam nos EUA e na Espanha. O Banco Safra é o patrocinador em Israel, mas até onde descobri a verba para o festival é reduzida e ele é um evento que sobrevive graças ao entusiasmo de seus criadores. Você pode encontrar maiores informações no site www.festivalemisrael.com. Serão exibidos 15 longas, entre documentários e ficções. O júri oficial, do qual participo, atribui dois prêmios, um para a melhor ficção e o outro para o melhor documentário. O júri popular dá um só prêmio, para qualquer das categorias. Vi, acho que pela sexta vez, O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, de Cao hamburger, que está sendo o filme de abertura nas três cidades. Já vi O ano no Festival do Rio, na Mostra de São Paulo, na pré-estréia em São Paulo, em Berlim e agora em Haifa. Corrigindo, foi a quinta vez. Não é uma obra-prima, mas é um filme que sempre me toca muito. A história do menino, o clima de repressão da ditadura, a euforia da Copa do México, tudo é contado/recriado com economia de meios, mas de forma muito emocionante. Acho o personagem do velho judeu do Bom Retiro um personagem deslumbrante. Um homem ético. E que maravilhosos atores são Michel Joelseas, que faz Mauro, o menino, e Germano Haiut, o velho Schlomo! É engraçado, já vi O Ano com platéias bem distintas e é curioso observar como, em toda parte, o público responde, mas não nos mesmos momentos. Deve ser isso a universalidade do cinema. Cada platéia, cada cultura, refaz ou absorve o filme, qualquer filme, à sua maneira. Tenho um carinho muito grande por uma cena com Caio Blat, que faz Ítalo. É um estudante, combatente contra a ditadura. Antes do primeiro jogo, contra a Checoslováquia, ele, como bom esquerdista, diz que a vitória checa será a do socialismo. Era assim na época. Muita gente não queria apoiar a seleção porquer seria apoiar a ditadura e os militares, realmente, depois encamparam a conquista do tri, fazendo dela um estandarte. No primeiro gol da Checoslováquia, Ítalo não comemora. Fica tenso. E ele explode na vitória do Brasil. Acho aquilo de uma sensibilidade imensa. Há 37 anos, muitos de vocês – a maioria, talvez – não eram nascidos. Não podem saber o que foi aquela seleção, a forma heróica como Pelé, Tostão, Jairzinho, Rivelino, Everaldo e todos os outros inflamaram esse país. Uma vez, entrevistando o Babenco, ele me disse que filma para tentar compreender o Brasil, o país que escolheu para viver, porque não entende a nossa falta de cidadania. O brasileiro só se perfila para o Hino Nacional se o jogo é da seleção. O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias é um filme muito bonito. Seu tema não é o choque cultural nem o processo de amadurecimento de Mauro. isso está lá, mas o tema é o exílio. Antes que Mauro vá para fora do país, com a mãe – porque seu pai está tão atrasado, vítima que foi da ditadura, que não chegará nunca (ele partiu num rabo de foguete, como cantava Elis Regina) -, é o exílio interno, que Schlomo também sente. Não sei de vocês, mas O Ano é um filme que revejo sempre com dor. Pode parecer masoquismo, mas não. No final, me sinto triste, mas gratificado. Não há crescimento sem perda. O aplauso caloroso da platéia coroou essa sensação de que este filme comporta múltiplas leituras. É brasileiro e é universal. Como deve ser o cinema.