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Cultura » O amor, segundo Truffaut

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Luiz Carlos Merten

13 Setembro 2007 | 20h05

Não estou tendo muito tempo para postar hoje, mas não posso perder a oportunidade. Cristina Padiglione, que edita o Telejornal – agora com o título de TV & Lazer –, me pediu um ‘abre’ para a página de DVD do suplemento do Estado. Lembrei-me que acabo de receber O Amor em Fuga, de Truffaut, da Versátil, e fiz um textinho rápido sobre o quinto e último filme da série com Jean-Pierre Léaud na pele de Antoine Doinel. O personagem começou autobiográfico em Os Incompreendidos, de 1959, e ao longo de quase 20 anos, até L’Amour en Fuite, em 1978, permaneceu o alter ego do diretor, mesmo quando as biografias de ambos não batiam mais. Na época, Godard bateu duro em seu colega de geração na nouvelle vague – Truffaut foi quem forneceu a história para Acossado (À Bout de Souffle) –, dizendo que Truffaut, naquele momento, estava fazendo os filmes que desancava nos seus tempos de crítico, quando escreveu o célebre texto contra o cinema francês de qualité. Também acho que Truffaut, num certo sentido, se aburguesou, mas não sou doido de negar valor a seus filmes físicos sobre o amor, esse sentimento que seus personagens vivem sempre no limite entre a palavra consciente e o gesto impulsivo, o que termina sempre por lhes causar sofrimento. Não sei se vocês se lembram de O Amor em Fuga. Doinel se divorciou, tem um filho pequeno e parece muito empenhado em não desperdiçar o que lhe parece sua última chance de ser feliz. A gente diz tanta coisa sobre Truffaut – que era um romântico que desconfiava do próprio rom,antismo e um homem que amava as mulheres no geral, sendo incapaz de se decidir por uma. Talvez seja o caso de acrescentar que Truffaut, às vezes tão sombrio, possuía um humor particular, uma leveza que transparece em Atirem no Pianista ou De Repente, num Domingo. O Amor em Fuga inclui o que, para mim, não deixa de ser uma autocrítica humorada do diretor. Existe uma cena – estou agora lembrando de memória, talvez não seja exatamente assim – em que Doinel pede ao filho que estude bastante violino, se quiser se transformar num grande artista. O menino pergunta o que vai ocorrer, se não se esforçar tanto. Doinel responde – “Neste caso, você vai virar crítico de música.” Corre o pano, rápido!