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O amor é uma coisa maravilhosa

Luiz Carlos Merten

27 Dezembro 2006 | 13h01

Falei ontem da ousadia de Henry Hathaway, que em 1965, com Os Filhos de Katie Elder, fez escolhas narrativas muito mais ousadas do que John Singleton na refilmagem camuflada de 2005, Quatro Irmãos. Isso me leva de volta ao personagem de Eli Wallach em O Amor não Tira Férias. Aquele velho roteirista nos ensina que Hollywood acreditava muito mais na inteligência do espectador. Veja-se, a propósito, o melodrama de Henry King que integra o pacote de DVDs da Fox. Em Suplício de Uma Saudade, William Holden faz o correspondente americano que, durante a Guerra da Coréia, se envolve com a médica eurasiana interpretada por Jennifer Jones. Os dois amam-se ao som da canção vencedora do Oscar (Love Is a Many Splendored Thing, de Sammy Fain e Paul Francis Webster). Henry King, em 1956, já tinha perto de 70 anos (nasceu em 1888). Sua carreira veio do cinema mudo e ele adquiriu tanto prestígio que era chamado de ‘diretor dos diretores’. Fez tudo, westerns, melodramas, musicais, filmes-catástrofe, de guerra. No Suplício, cria uma cena de antologia. As convenções sociais, leia-se o racismo, dificultam o romance da dupla principal. Quando a situação parece resolvida, Holden toma aquele avião, numa missão de guerra. Jennifer está na cozinha de casa. Quebra um prato, ou uma xícara, nem me lembro bem. O importante são os cacos de louça espalhados no chão, que viram metáfora para a queda do avião (que não aparece). Nada é dito, tudo é sugerido, e com grande economia. Não sou nostálgico, curto muito o cinema da minha época, mas algo se perdeu, na arte de narrar. Os filmes de Hathaway e King o confirmam.