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Luiz Carlos Merten

30 Agosto 2010 | 16h15

Morreu anteontem Alain Corneau. Nem sabia que estava doente. Morreu de câncer. Nem era tão velho – 67 anos, dois a mais que eu. Por mais que tentasse, não cheguei a ver, nas últimas vezes em que estive em Paris, vindo de algum grande festival – e olhem que procurei -, a nova versão de ‘Le Deuxième Souffle’. De tanto ouvir falar que era o sucessor de Jean-Pierre Melville como especialista em filme noir, Corneau terminou por se atracar com o remake de um dosclássicos do grande diretor. Eu amo ‘Le Deuxième Souffle’, que passou no Brasil como ‘Os Profissionais do Crime’, com Lino Ventura e Paul Meurisse, mas não estou seguro de que seja meu favorito entre os trabalhos de Melville – gosto ainda mais de ‘O Samurai’, com Alain Delon, e de ‘Expresso para Bordeaux’, cuja estilização formal, para não dizer ‘artificialismo’, é uma coisa de louco. Corneau fez todos aqueles policiais – ‘Calibre Python’, ‘Encurralado para Morrer’, ‘Série Noire’ etc, mas eu confesso que meus favoritos, entre os filmes dele, são obras que fogem à tendência. Os mais velhos devem se lembrar. No começo dos anos 1990, ‘Noturno Indiano’ virou cult em São Paulo e ficou meses, senão anos, em cartaz no Belas Artes. Baseado no livro de Antonio Tabucchi, o famoso tradutor italiano de Fernando Pessoa, ‘Noturno’ trata de solidão e do desdobramento de identidades. O próprio Pessoa tinha seus heterônimos. Rossignol, interpretado por Jean -Hughes Anglade, protagonista de ‘Noturno’, busca um amigo na Índia. Lembro-me de uma cena em que Angladse se encontrava com a prostituta que conheceu o amigo e ela conta como ele gostava de visitar determinada estátua com três cabeças – representando Brama, Shiva e Vishnu -, na ilha Elefanta. Mas quando Corneau visualizava a peregrinação, com a voz da prostituta de fundo, era o próprio Rossignol que aparecia. O tema do filme – a busca do outro equivale, muitas vezes, à busca do eu interior. O próprio Corneau, ao empreender esse filme, disse numa entrevista que a mudança – de história, até de estilo – era somente aparente e a solidão que corroía Yves Montand em ‘Calibre Python’ não diferia em nada da de Jean-Hughes Anglade no ‘Noturno’. Na época, Anglade era, ele mesmo, um ator cult. ‘L’Homme Blessé’, ‘Betty Blue’, o próprio ‘Rainha Margot’ esculpiram sua reputação e ele meio que pirou (como Jean-Pierre Léaud), o que só fez aumentar o culto. Depois de ‘Noturno’, veio ‘Todas as Manhãs do Mundo’, pelo qual Corneau ganhou o César, o Oscar francês. É um dos mais belos filmes do mundo, ou assim me parece, agora que escrevo meio emocionado, por causa da morte de seu autor. Começa com o velho Gérard Depardieu – quando jovem, o personagem é interpretado pelo filho de Gérard, Guillaume, que também já morreu. Ele se chama Marin Marais e lembra seu mestre, Sainte Colombe, que tocava divinamente um instrumento (a viola de gamba). Marais tenta se apossar do segredo – do mistério – de Sainte Colombe, que vive segregado, após a morte da mulher. Essa solidão pavorosa de Sainte Colombe, interpretado por Jean-Pierre Marielle, era com certeza um tema caro a Corneau, mas o filme trata do choque entre duas concepções de arte e vida, na passagem do século 16 para o 17. Numa cena, Marin Marais vai ouvir enfim, de seu mestre, o reconhecimento de que o que ele próprio faz é arte. Lembro-me de uma frase – ‘Todas as manhãs do mundo são sem retorno’, dita por Depardieu. É uma forma de dizer que o tempo perdido não pode ser reencontrado, o que é uma mentira, como provou Proust. O tempo pode ser recuperado, mas é um processo doloroso, e justamente esse processo atraía Corneau. A trilha, belíssima, de ‘Tous les Matins du Monde’ é assinada por Jordí Savall. Lembro-me de haver escrito, na época, há quase 20 anos, que Corneau fazia a síntese de ‘A Crônica de Ana Madalena Bach’, de Jean-Marie Straub e Danielle Huillet, com o ‘Amadeus’, de Milos Forman. Agora, ao tentar reconstituir o filme no meu imaginário, me lembro dele mais Straub do que Forman. Lembro-me de outra frase, essa de Sainte Colombe. Ele diz, mais ou menos, que a música foi criada por Deus para substituir as palavras. Já que a morte de Alain Corneau me impulsionou nessa viagem, vou pedir a ajuda de Billy Wilder, que encontrou William Wyler no enterro de Ernst Lubitsch e Wyler lhe disse – ‘Nunca mais Lubitsch!’, ao que Wilder acrescentou – ‘Pior! Nunca mais as comédias de Lubitsch!’ Sinto-me agora um pouco órfão do cinema exigente de Alain Corneau.