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O adeus a Blake Edwards

Luiz Carlos Merten

16 Dezembro 2010 | 17h22

Já estava conformado de que, com tantas matérias por redigir desde a manhã – e outras tantas para apurar -, não teria tempo para postar nesta quinta-feira. Mas eis que aqui estou, e por um motivo que muito me entristece. Morreu Blake Edwards. Na verdade, ele moreu ontem pela manhã, de complicações provocadas pela pneumonia, num hospital de Los Angeles. Tinha 88 anos. O anúncio foi feito somente hoje, agora há pouco. Blake Edwards! Em janeiro do ano passado, ao entrevistar sua agora viúva, Julie Andrews, ouvi dela que não teria conseguido viver ao lado dele – 30 e tantos anos, desde a filmagem de ‘Sementes de Tamarindo’, em 1974 -, se não tivesse senso de humor. Deus, eu amava Blake Edwards. Me corta o coração estar redigindo esse post, como ele fosse, é, um ente próximo e querido. Gosto de muitas comédias, mas não é segredo para ninguém que a minha favorita é ‘Um Convidado bem Trapalhão’. Edwards e Peter Sellers já haviam feito dois exemplares da série da Pantera Cor de Rosa – justamente ‘A Pantera Cor de Rosa’ e ‘Um Tiro no Escuro’ – quando surgiu a história de Hrundi Bakshi, ator indiano que participa de uma superprodução, no estilo de ‘Gunga Din’, em Hollywood. Bakshi é o desastre em pessoa. Com a cara mais cândida, provoca acidentes que destroem o set. O produtor anota seu nome, disposto a varrê-lo do mapa do cinemão. Por outro equívoco, ele faz sua anotação na lista de convidados para uma festa ultra-exclusiva que vai dar. Com a mesma candidez, Hrundi Bakshi/Peter Sellers vai destruir a mansão do produtor. Numa cena, ele vai ao banheiro. Puxa um pedaço de papel higiênico e fica olhando o rolo girar até que não sobre papel algum. Só isso. A cara de Peter Sellers lembra a de Garbo. Ele não expressa nada, o que significa que a gente pode ler tudo em seu rosto. Quase morro de rir vendo aquilo. Blake Edwards foi parceiro de Richard Quine – foi seu roteirista – numa série de filmes. Ele próprio tornou-se diretor em 1954 ou 55, mas foi preciso esperar por ‘De Folga para Amar’ e ‘Anáguas a Bordo’ para que começasse a ter reconhecimento. Na TV, formatou séries como ‘Peter Gunn’ (e depois fez o filme). De sua experiência na TV surgiu a parceria com músicos como Lalo Shiffrin e Henry Mancini. Adoro seu thriller ‘Escravas do Medo’ (Experiment in Terror), com Lee Remick e Stefanie Powers, que precede ‘A Pantera’. Mas quando o fez, em 1961, Edwards já tinha dado a medida de seu imenso talento em ‘Bonequinha de Luxo’, que adaptou de Truman Capote, ‘Breakfast at Tiffany’s’. O próprio escritor queria Marilyn Monroe no papel, Edwards bancou Audrey Hepburn. sua imagem na 5ª Avenida, namorando os diamantes na vitrine da joalheria famosa, são emblemáticas de toda uma época. Edwards fez grandes filmes, comédias, principalmente. Ele próprio explicava seu método – dizia que trabalhava o gag (é masculino em inglês, feminino em português) no sentido de torná-lo o mais simples e essencial possível, e isso era considerado sofisticado. Blake Edwards filmou muito com Peter Sellers e, após a morte do ator, continuou filmando muito com sua mulher, Julie Andrews. Ele transportou François Truffaut para a ‘América’ – ‘O Homem que Amava as Mulheres’, que virou ‘Meu Problema com as Mulheres’ -, fez ‘Assim É a Vida’ em casa, entre amigos, revisitou os bastidores da indústrria em ‘Assassinato em Hollywood’. Só uma vez tive a chance de estar próximo dele. Teria de pesquisar para ver o ano, mas foi em Cannes, quando o maior festival do mundo se vestiu de gala para lhe atribuir uma Palma de Ouro especial, de carreira.  Lembro-me dele chegando para a coletiva, com Julie, que estava linda, principalmente muito elegante, em tons pastel, alguma coisa bege, brincos e colar de ouro, mas era tudo muito/muito discreto. Com Julie, meu filme favorito, entre todos os que fez, é ‘Victor/Victória’, que trata de sexo, e do direito à diferença, com graça e lucidez. Lembro-me de um texto breve de Jefferson Barros, em Porto Alegre, dizendo que o próprio Edwards amava as mulheres, e as atrizes que as representaram em seus filmes. Ele dirigiu Julie, Audrey, Lee, Natalie Wood, Claudia Cardinale, Capucine, Elke Sommer, Claudine Longet. A lista é longa, todas estiveram deslumbrantes nos filmes de Blake Edwards. Este finalzinho de ano está sendo de muitas, grandes perdas. Não vamos mais ver Blake Edwards se renovar, reinventar. Mas seus filmes vão continuar nos – ou me – encantando.