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Cultura » O adeus a Ballard

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Luiz Carlos Merten

21 Abril 2009 | 14h10

Nem tive tempo ontem de comentar a morte de J.G. Ballard, presumivelmente de câncer, do qual sofria, aos 79 anos. Tive matérias pela manhã e à tarde, após o almoço, fui visitar o novo set de Laís Bodanzky, na Chácara Klabin. Um filme que promete, mas eu sou suspeito, porque adoro o cinema dela e do marido, Luiz Bolognesi. Continuo tendo um carinho especial por ‘Bicho de Sete Cabeças’, entre todos os filmes da Retomada. Gostei muito de ‘Chega de Saudade’. Laís e Luiz investigam agora o universo dos adolescentes, a escola. Chega, porque senão vou me desviar do assunto do post. Li pouco Ballard e sempre em função das adaptações que Steven Spielberg e David Cronenberg fizeram dele, em ‘Império do Sol’ e ‘Crash – Estranhos Prazeres’. Gostaria de rever um e outro. Eu também tinha preconceito contra Spielberg, achava que ele sofria da síndrome de Peter Pan, mas ‘Império do Sol’ era justamente a passagem do menino para o homem. Não gostava de Cronenberg, mas depois de ‘Os Senhores do Crime’ será que não estou mais aberto para gostar de (ou entender…) ‘Crash’? Lembro-me que o próprio Ballard integrava a mesa da coletiva de ‘Crash’, quando o filme de Cronenberg concorreu em Cannes. Os críticos – nós… –, sempre tão metidos a sério, queriam arrancar dele alguma declaração bombástica contra Spielberg. Ballard dizia que a obra de Spielberg, como a dele, era muito baseada no que se chama de ficção científica e isso favorecia a identificação entre ambos. Surpreendentemente, revelou que amava ‘Contatos Imediatos’, uma obra-prima de misticismo, como disse. Ballard nasceu em Xangai e lá estava quando os japoneses invadiram a China, em 1937, mas só após o ataque a Pearl Harbor, em 1941, eles invadiram a cidade e o escritor e os pais foram enviados para um campo de prisioneiros. No livro e no filme, o garoto, Jim, vai sozinho para o campo. A experiência foi decisiva para Ballard. Como ele disse, certa vez, no campo de prisioneiros passou a ver o mundo como algo muito mais perigoso do que ele parecia para os garotos ingleses de sua geração. De uma maneira que ele próprio chamou de ‘apocalíptica’. O apocalipse é total em ‘Crash’, naquela idéia de transformar o carro em metáfora do sexo. O livro – e o filme – são sobre a morte do afeto e o sexo automatizado, ao qual homens e mulheres não escapam porque somos programados, instintivamente, para isso. O livro é de 1973. Vieram depois a aids, o politicamente correto, o novo puritanismo, mas Ballard achava que o mundo real apaga esse puritanismo. A realidade está longe de ser puritana, o papel dos automóveis não cessou de aumentar em nossas vidas, a dependência do sexo e das drogas também cresceu muito. As drogas se banalizaram, ele ressaltava. Se ‘Crash’, no começo, era visto como uma profecia, quando o filme saiu, em 1996, a profecia se havia materializado, dizia o autor. O pessimismo da razão. Achei-o sempre uma figura curiosa, no seu isolamento, no seu radicalismo. O fato de haver atraído autores aparentemente tão diversos quanto Spielberg e Cronenberg também pode surpreender, mas até que ponto. Não me lembro se tenho o DVD de ‘Império do Sol’. O de ‘Crash’, não tenho. Fiz uma pausa e fui pesquisar na revista da Net se estão programados para passar na TV paga. O ‘Crash’ que passa é o outro, ‘No Limite’, de Paul Haggis, na quinta, 23. Christian Bale fazia o garoto em ‘Império do Sol’. Ballard, que aceitou um papel só para ver Spielberg no set, contava que a dedicação do diretor ao ator mirim era total. Bale virou o ator extraordinário que vocês sabem ou eu, pelo menos, reconheço. Mais vontade me deu de (re)ver ‘Empire of the Sun’.

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