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Novas colombianas…

Luiz Carlos Merten

23 Janeiro 2016 | 12h35

BOGOTÁ – E, no final, essa viagem à Colômbia me/nos saiu melhor que a encomenda. Em Cartagena, houve o problema do hotel na cidade murada, mas a cidade, o clima, os entardeceres no Café del Mar valeram a pena. E andar por aquelas ruas históricas! Mas Bogotá! O super-hotel, o Museu do Ouro, a Catedral do Sal, o restaurante do Andrés, em Chia. Amei! Hoje é nosso último dia na cidade. Partimos à noite para São Paulo. Estou falando no plural porque estamos meu amigo Dib, o filho dele, Heitor, e eu. Não sou religioso, mas confesso que sou dado a crises místicas. Não posso ir a Paris, e tem sido dezenas de vezes, sem ir à Catedral de Notre Dame. Sento-me e solto a imaginação. Não vejo nenhum Quasímodo salvando Esmeralda e gritando ‘Asilo!’, mas me encanta pensar na devoção dos artesãos que, ao longo de séculos, erigiram a catedral. Para a Igreja, era uma manifestação de poder. Para eles, de fé. Na Catedral de Sal, cento e tantos metros debaixo da terra, tive uma sensação parecida. A catedral dos mineiros. Vieram-me os filmes, ou o filme – Ver-Te-Ei no Inferno, The Molly Maguires, de Martin Ritt, no qual Sean Connery, em seu maior papel, rejeita a Igreja, aliada dos patrões, e faz explosões na mina. A Colômbia já foi a primeira potência comercial do mundo, naquele período em que o sal se transformou em moeda. Os próprios mineiros eram pagos com sal. Sal-ário. A Via Crúcis da Catedral do Sal é um sonho, uma abstração. Apenas cruzes, e nelas, pela maneira de trabalhar a pedra, o sal, representam-se, simbolicamente, as estações do Calvário. É preciso soltar a imaginação. Penso nos artistas, nos artesãos. E me vem uma emoção profunda. A fé, mesmo que seja a dos outros, me comove. Em Cartagena, no alto do monte, visitamos o santuário da Popa, construído por frades que destruíram o culto do Demônio, representado por um bode, tal como era praticado ‘por los negros, esclavos’. Reportei-me às Confissões de Nat Turner, que Norman Jewison não conseguiu realizar porque, na época, por volta de 1970, os EUA haviam saído das lutas por direitos civis e uma história como a dos negros que massacraram seus ‘senhores’ ia parecer provocação demais. E nos filmes. Vi em Cartagena O Novíssimo Testamento, e na manhã seguinte entrevistei Jaco Van Dormael pelo telefone, de Bruxelas. Entrevistei também Alice Winocour, diretora de Augustine e roteirista de Mustang/Cinco Graças, que concorre ao Oscar. E vi/vimos El Abrazo de la Serpiente, de Ciro Gomes. A força do Oscar. As salas têm lotado para exibir o longa selecionado por Hollywood para concorrer ao prêmio de melhor filme em língua estrangeira. Imagino que, no Brasil, seria a mesma coisa, se Que Horas Ela Volta? tivesse sido selecionado entre os cinco. Não importa quão críticos sejam os filmes – o de Anna Muylaert, o de Jaco Van Dormael, o de Ciro Gomes -, a mentalidade colonizada se impõe. O aval de Hollywood representa o quê para o público de todo o mundo? Um selo de qualidade? Embora em vacaciones, uma semaninha, não consigo me desligar do cinema nem do jornal. Fiquei mandando matérias. Tem gente que me acha louco, um caso perdido. Mas é que gosto tanto do que faço… Na segunda, 24 horas depois de chegar, parto para Tiradentes e para a Mostra Aurora. E logo em seguida, depois do carnaval – e da Vé-Vé, Je Suis Paris -, serão Berlim e Paris, la vraie, onde espero passar com a Lúcia, que não pôde vir à Colômbia, o aniversário dela. Apesar de tudo, a vida é bela!