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Cultura » Nova missão impossível de Tom Cruise

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Luiz Carlos Merten

07 Novembro 2006 | 12h08

Tenho de confessar que gosto do Tom Cruise. Não sou louco de achar que ele é um grande ator, mas sempre admirei a generosidade de Tom Cruise, servindo de escada para o brilho de outros atores, que são até melhores. Dustin Hoffman ganhou o Oscar num filme ‘de’ Tom Cruise, Rain Man. O vilão de Missão Impossível 2, Dougray Scott, é melhor que ele, mas nada disso abala o carisma do astro que Tom Cruise é. Em Cannes, muitos anos atrás, na época de Um Sonho Distante, entrevistei-o (quando ele ainda dava entrevistas para pequenas grupos) e dava para ver que o cara tinha um brilho, uma aura especial. Durante anos, Tom Cruise foi o paradigma do astro de Hollywood. Imaginem se os outros, tendo o poder de fogo dele na indústria, deixariam que segundos ou terceiros brilhassem em seus filmes. Como ator, Cruise fez escolhas que admiro. Parou com tudo para ficar, durante dois anos, à disposição de Kubrick, para que o grande diretor fizesse De Olhos bem Fechados. Acho a série Missão Impossível eletrizante e Guerra dos Mundos integra o que, para mim, é a admirável trilogia de Spielberg sobre os EUA pós-11 de Setembro (com O Terminal e Munique). Pois bem – acompanhei com certa tristeza a prazerosa cobertura que a mídia dedicou à ‘decadência’ de Cruise, com suas bizarrices recentes. Nunca sei a igreja dele (cientologista?), mas o comportamento do cara realmente mudou. Essas coisas, podem me achar babaca, mas confesso que me deixam triste. Pois Cruise foi demitido da Paramount e senti um verdadeiro prazer nos títulos das matérias que reportavam o caso – astro desempregado, astro demitido, o isso ou aquilo. Deviam ficar injuriados com o fato de ele ganhar URS 20 milhões, mas, fazer o quê, se o cara valia – e o valor dele foi estuipulado pelo próprio ‘sistema’? Pois bem. Cruise caiu do cavalo. Era o ontem do cinema. Era? Na semana passada, estava em Nova York quando até o The New York Times deu grande destasque (na capa) à decisão de Tom Cruise e sua produtora (e parceira) Paula Wagner, que compraram a marca United Artists, da qual ele é agora o charmain artístico. A nova UA, criada sobre as cinzas daquela que Chaplin, Mary Pickford, Douglas Fairbanks e Griffith criaram há quase um século para ter independência artística, vai produzir quatro filmes por ano, que Cruise vai ter a opção de estrelar (mas não necessariamente). Ele já anunciou que quer ousar. Não precisa nem ousar tanto. Se conseguir fazer filmes ‘comerciais’ como os da série MI, eu, particularmente, já vou ficar feliz. O executivo que o demitiu da Paramount formulou os melhores votos. Mentira – se pudesse, mandava um ninja matar o Tom Cruise, porque, se ele tiver sucesso, quem vai dançar será quem o demitiu. É muito cedo para saber se Cruise terá sucesso, se a UA vai vingar. Mas a briga promete. O good guy tenta sua segunda chance, o herói solitário combate Hollywood. Parece um épico hollywoodiano.

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