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Luiz Carlos Merten

22 Maio 2010 | 17h32

CANNES – Acabo de ver o filme vencedor da mostra Un Certain Regard. Madame Claire Denis, presidente do júri integrado por Serge ‘Ex-Cahiers du Cinéma’ Toubiana, fez a coisa certa, mais do que os coleguinhas da crítica. Antes de apresentar seus premiados, ela disse, no palco da Sala Debussy, que o filme de Manoel de Oliveira, na primeira noite, já havia deixado seu grupo num estado de comunhão e euforia. Cheguei a pensar, por um momento, que tivessem premiado ‘O Estranho Caso de Angélica’. O júri de Un Certain Regard destacou dois filmes latinos – ‘Los Labios’ e ‘Octobre’  -, mas o grande vencedor da seção foi o coreano ‘Ha Ha Ha’, de Hong Sang-soo. É o filme mais ‘rohmeriano’ que Eric Rohmer não realizou, uma história muito nouvelle vague de encontros e desencontros amororosos no quadro da Coreia contemporânea. o diretor disse que fez o filme com grande dificuldade, sem dinheiro nenhum e agradeceu a dois dos atores, no palco, dizendo que eles não haviam recebido nada. O clima, na tela, era de encantamento e o filme, em vez de ‘Ha Ha Ha’, poderia se chamar ‘Blá Blá Blá’. É muito falado, mas, ao contrário dos filmes de François Truffaut, os personagens, mesmo vivendo o amor como gesto impulsivo e falando muito, não professam a máxima truffautiana da palavra consciente. Os homens são um tanto infantis, as mulheres mais maduras. A mãe de um dos protagonistass é a governanta de ‘The Housemaid’, uma famosa atriz dos anos 1960 – teria de buscar o nome – que retoma a carreira depois de um hiato de não sei quantos anos (20?). Adorei, mas, cá com meus botões, tive de admitir, para mim mesmo, que esperava uma escolha mais ousada de Claire Denis – o filme de Lodge Kerrigan? Talvez.