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Luiz Carlos Merten

08 Março 2007 | 10h55

Achei muito legal a observação do Vítor Correa – este nome me cheira a pseudônimo, será? –, fazendo a ponte entre a infantilidade dos personagens de Pecados Íntimos, filme que amo, e a da personagem de Judi Dench em Notas sobre Um Escândalo. Confesso que é um filme ao qual faço muitos reparos, mas gostei de revê-lo, no último final de semana. Era domingo à noite, estava meio atrasado e entrei correndo na sala do Arteplex, achando que estaria lotada. Dei de cara com uma platéia muito meia-boca, com pouquíssima gente. Acho o trabalho das duas atrizes, Cate Blanchett e Judi Dench, uma coisa notável e juro que vou morrer sem saber qual é o critério que faz com que a primeira tenha concorrido ao Oscar de coadjuvante e a segunda ao de atriz. Tudo bem que Judi possa ser considerada mais importante, porque, afinal, as notas são dela, de sua personagem, mas daí a fazer de Cate uma coadjuvante do próprio escândalo… Achei pertinente, e muito interessante, o comentário do Vitor sobre o comportamento infantil daquela velha lésbica, autocentrada, egoísta e recalcada, e que passa pela vida sem aprender com os próprios erros. Em Pecados Íntimos, o pedófilo termina despertando a compaixão do cara que o aterroriza e quem cresce com isso é o sujeito opressor que, afinal, também tem um erro para purgar. Vitor tem razão. Todas as cenas do pedófilo – com sua mãe, com a mulher com quem saiu – possuem uma característica ‘dilacerante’. Tudo ali é doloroso, triste, aquela impossibilidade de reagir sobre o próprio destino. O cinema tem essa capacidade de nos fazer compartilhar experiências, de vivenciar dramas que mal conhecemos, de entender o outro em toda a sua complexidade. De volta a Notas, me incomoda um pouco o aspecto Atração Fatal lésbico, que é uma coisa muito forte, mas acho as personagens muito fortes. Aquela impunidade da Cate, seduzida pelo aluno e achando que pode fazer sexo com ele porque, afinal, ela também tinha feito com seu professor, que era mais velho (e se casou com ele). Acho muito interessante aquele duplo movimento, no desfecho – a Cate subindo a escada, para bater à porta do marido, a Judi descendo outra escada. No final, a vemos repetindo exatamente seu comportamento predatório. E eu gosto demais do garoto, do estudante. A determinação dele, o olhar para Cate, como quem diz ‘essa mulher vai ser minha’. Me sinto um voyeur. Ela diz que ele é maduro para sua idade, mas não é. Na cena H, o garoto desabafa – ‘Era para ser divertido!’ De tudo isso, o que achei mais impressionante foi o que me contou o Antônio Gonçalves Filho, que fez a entrevista com Zoe Heller, autora do livro (que se chama Anotações sobre um Escândalo). Zoe é filha de Lukas Heller, que foi roteirista de obras importantes do meu queridíssimo Robert Aldrich, cineasta a quem admiro tanto que lhe dediquei um capítulo do meu livro Cinema, Entre a Realidade e o Artifício. Fecho o parêntese sobre quem é Zoe para chegar ao ponto. Ela se baseou numa história real e a realidade é a seguinte – a professora teve um tórrido affair com o aluno de 13 anos, enfrentou todas as complicações com a lei que o filme deixa claro, mas esperou que ele adquirisse a maioridade, casaram-se e tiveram um filho!