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Nostalgia – de Paris ou da Luz?

Luiz Carlos Merten

19 Janeiro 2011 | 09h06

Cá estou eu de volta ao Brasil. Cheguei ontem pela manhã, depois de seis noites (e sete dias) em Paris, durante os quais corri feito louco para dar conta – 1) das atribuições do júri do festival www.myfrenchfilmfestival.com; 2) das entrevistas durante o ‘Rendez-Vous du Cinéma Français’; e 3) assistir a pelo menos uma parte dos numerosos filmes e exposições que rolam neste momento na cidade. Na sexta à noite, para assistir à entrega do prêmios dos correspondentes estrangeiros – o Lumière, que consagrou Roman Polanski – perdi o debate de Jean-Marie Straub com o público de seu ‘O Soma Lucce’, que vi no Réflets Médicis. No domingo, após a entrevista com Nathalie Baye, no Hotel Intercontinental, na Ópera, peguei um táxi e corri para o Quartier Latin, para participar, no La Clef, do encontro com Patricio Guzmán, após a projeção de ‘La Nostalgie de la Lumière’. Já havia visto o filme em Cannes, no ano passado, e talvez seja curioso assinalar que o documentário teve uma presença discreta no maior festival do mundo. O culto começou depois. Cheguei, a sala lotada, o filme já havia começado, não havia como entrar. Mas chorei minhas pitangas para a gerente, ou dona da sala, e ela me disse que voltasse em uma hora e meia. Consegui entrar para o debate, que foi muito bacana. Num certo sentido, era um privilegiado. Guzmán falava do mistério do deserto do Atacama, do terror que experimentou ao se deitar naquele solo e, pelo efeito do ar rarefeito, ser confrontado com aqueles milhões de estrelas. Engraçado – ele teve um medo metafísico, como disse. Eu experimentei o completo maravilhamento (não sei se existe a palavra, mas gosto da sonoridade). Depois, Guzmán falou de Salvador Allende como o maior presidente da história do Chile e eu acho que já contei aqui. Voltei recentemente ao Chile três vezes, com meu amigo Dib Carneiro, com minha filha Lúcia e para visitar o set de ‘Quantum of Solace’, no observatório Paranal, justamente no Atacama. Em Santiago, fomos a La Moneda. Há quase 40 anos, com a Dóris, minha ex-mulher, havia visitado o Chile às vésperas do golpe militar. Até hoje, percebe-se no país uma divisão entre os partidários de Allende e do malfadado General Pinochet. Numa cena do filme de Guzmán, uma das mulheres que busca os corpos de seus mortos, escavando no Atacama, onde presos políticos foram executados e enterrados em valas comuns, diz que suas companheiras e ela são como a lepra do Chile. Indesejáveis para uma sociedade que preferiria esquecer, e elas insistem, clamando por justiça. O próprio Guzmán também se definiu como um ‘leproso’ e, ouvindo-o falar, eu me lembrei da emoção que experimentei em La Moneda, perante o palácio reconstituído, ao ver aquela estátua gigantesca de Allende, o passo firme, avançando rumo à história (com maiúscula) e a frase dele que é uma manifestação de fé no socialismo. Pinochet, o maldito, fez tudo para arrancar a herança de Allende dos chilenos, para extirpá-la a ferro e fogo, mas não conseguiu, aleluia. Tudo isso me passou pela cabeça e eu confesso que já estava sensibilizado por que o La Clef vai lançar, em 26 de janeiro, um filme intitulado ‘Dessine Toi’ e, como preparativo, há uma exposição de fotos feita pelo diretor ao redor do mundo. Ele conta que sua filha, na suíte de uma série de desenhos, de autorretratos, que fez na escola, lhe disse que não gostava de negros e ele teve a ideia de levá-la à África, para que ela visse crianças negras, para que percebesse que não eram diferentes dela. O documentário nasceu assim e as histórias das crianças, nas fotos, a forma como ela se representam, já me havia deixado muito sensível, me questionando sobre a minha paternidade. Gosto de imaginar que fui, que estou sendo um bom pai para a Lúcia. Não foi mera figura de retórica a dedicatória que lhe fiz no livro ‘Cinema – Entre a Realidade e o Artifício’, alguma coisa como ‘Para minha filha Lúcia, luz de minha vida, a quem amo, e só a ela, mais que ao cinema.’ Misturei muito as coisas, como sempre. Foi emocionante o rendez-vous de Patricio Guzmán com seu público, domingo, em Paris. Havia acrescentado o título do post antes de começar sua redação. Dou-me conta agora de que pode haver aí uma metáfora, ou uma redundância. Paris, afinal, é a cidade luz, não?