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Luiz Carlos Merten

11 Dezembro 2009 | 12h47

Tinha até me esquecido de chamá-los para o debate que houve ontem no CCBB, após a exibição de ‘Memórias’ no ciclo ‘A Elegância de Woody Allen’. Com mediação de Cláudio Galperin, conversamos, Luiz Bolognezi, Newton Cannito e eu, sobre nossos Woody Allens favoritos, pois o tema era justamente ‘Os Filmes de Nossas Vidas’, a forma como ele – e seus filmes – nos afetam, como os assimilamos e personalizamos. Neste sentido, não houve propriamente um debate, porque ninguém estava interessado em impor seu ponto de vista. Foi realmente uma conversa de compadres, da qual o público participou (e o clima era tão descontraído que eu aproveitei uma deixa do Cannito para deslocar o eixo da conversa, falando sobre Ingmar Bergman). Cannito falou do clown em Woody Allen, Bolognezi falou mais da função do roteiro no cinema dele e privilegiou os filmes ‘menores’, tipo ‘Melinda e Melinda’, eu bati na tecla de que Allen era muito melhor com Mia Farrow, quando produziu seus maiores filmes (para mim, ‘Zelig’, ‘A Rosa Púrpura do Cairo’, ‘Hannah e Suas Irmãs’, ‘Crimes e Pecados’…). O engraçado é que todos nos confessamos mais ou menos ‘zeligs’. Eu gostava tanto das observações do Bolognezi, que aprovava tudo o que ele dizia (mesmo discordando); ele achava corretíssimo tudo o que eu dizia, concordava que ‘A Rosa Púrpura do Cairo’ é outro compartimento, mas ‘Melinda e Melinda’… (e voltava a elogiar o filme com Radha Mitchell). No final, concordamos que há, no cinema de Woody Allen, uma tensão erótica muito interessante e, por falar nisso, Antônio Gonçalves Filho veio ontem me dizer, antes que eu fosse para o CCBB, que assistiu a ‘What?’ (Quê?), filme de Roman Polanski, do começo dos anos 1970 (após ‘Macbeth’), que assisti em Montevidéu (ou Buenos Aires). Toninho achava que o filme nem estreou no Brasil, por conta da censura do regime militar, mas eu acho que estreou, sim. Ia pesquisar nos arquivos do ‘Estado’, mas vamos ver o que vocês me dizem. ‘What?’ fala de sexo, da elefantíase da libido, com direito a nus frontais de Sydne Rome e Marcello Mastroianni. Foi a deixa para que eu lembrasse, com Toninho, filmes que foram marcantes nos libertários anos 1960 justamente por sua abordagem do sexo. Woody Allen entrou na lista com ‘Pussycat’ (‘O Que É Que Há, Gatinha?’), mesmo que o filme seja assinado por Clive Donner, e depois vieram ‘Candy’, ‘What’… Lembrei-me até de ‘Myra Breckinridge’, Homem e Mulher Até Certo Ponto, de Michael Sarne, com Raquel Welch no papel de um homem que vira mulher por meio de uma operação de mudança de sexo. O filme tem Mae West e sua célebre piada do caubói, um cavalão a quem ela pergunta a altura, ele diz que tem 2m17, ela anuncia que vai se esquecer dos dois metros e concentrar nos 17 cm, que são o que interessa. Tudo isso há 40 anos (ou mais), sob a ditadura, era uma revolução. O mundo, os costumes, estavam mudando e o cinema também. Vocês já viram que hoje estou propício às sessões nostalgia. Na verdade, não. Estou lembrando, não necessariamente dizendo que era melhor. Mas haja hoje para tanto ontem.

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