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‘Nosso’ Brad Pitt

Luiz Carlos Merten

09 Agosto 2011 | 16h51

GRAMADO – Tem gente (local) que não aceita a curadoria de dois ‘estrangeiros’, José Carlos Avellar e Sérgio Sanz, aqui no Festival de Cinema Brasileiro e Latino. Ambos selecionam os filmes que compõem as duas mostras principais. Mas é um fato que o festival estava indo para o brejo. Não que esteja tudo às mil maravilhas. Avellar e Sanz privilegiam o cinema de autor e programam filmes que dialoguem entre si, o que é bacana. Mas nem eles conseguiram avalizar o prestígio do festival latino. Além de os filmes concorrentes terem poucos representantes – às vezes, nenhum – para incrementar os debates, alguns filmes têm passado em vídeo, em cópias precárias, o que é um desprestígio muito grande. Os concorrentes latinos estão melhores do que os brasileiros, mas isso tem sido a regra. Há uma Mostra Panorâmica, à tarde, que tem sido bem melhor do que a competição brasileira. Acabo de assistir, agora, a ‘Mãe e Filha’. Acho que já escrevi isso sobre Rosemberg Cariry no blog. Antes dos irmãos Pretti e dos primos Parenti, ele dava cara ao cinema cearense. Sempre tive um sentimento ambivalente. Não gosto dos filmes de Rosemberg, que me parecem muito precários, mas tenho verdadeiro encantamento por ele, enquanto pessoa. É homem de grande erudição e que possui o dom da palavra. Poderia ficar horas ouvindo-o falar. Cheguei a dizer, acho, que Rosemberg poderia reinventar o cinema brasileiro só se colocando diante da câmera e contando as histórias que insiste em filmar. Seria o verdadeiro cinema falado, e eu confesso que meu prazer poderia ser muito maior. Rosemberg tem um filho, Petrus. É o diretor de ‘Mãe e Filha’. Petrus faz tudo – dirige, produz, faz a câmera. Imagino, seria muito estranho se não, que seu amor pelo cinema tenha vindo do pai. ‘Mãe e Filha’ é sobre esta mulher que saiu de casa e não deu notícias por 20 anos. Ela volta agora à cidadezinha do sertão para enterrar o filho bebê. A maioria dos diálogos são palavras da avó, que reflete sobre o significado dessa dupla maternidade. A cidade está se destruindo. É Volterra, de Luchino Visconti, ‘Vagas Estrelas da Ursa’. Imagino que ‘Mãe e Filha’ possa ser considerado mórbido, mas eu assisti fascinado às imagens. Petrus mostra quatro vaqueiros, sempre juntos e imóveis. No final, a filha está partindo e eles fecham o caminho. Vejam, tentem ver, para saber o que ela faz. Os quatro vaqueiros são os cavaleiros do Apocalipse do diretor? É incrível como, assistindo a ‘Mãe e Filha’, lembrei-me de Carlos Coimbra, a quem entrevistei para o livro da Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial. Coimbra seguiu a trilha de Lima Barreto, de ‘O Cangaceiro’, e consolidou o nordestern. Mas Coimbra filmou no interior do Ceará aquelas imagens do sertão para as quais seu fotógrafo, Tony Rabatoni, não dispensava filtros nem rebatedores de luz. Coimbra me contava histórias impressionantes do sertão. Nem todas estão no livro. Eu o admirava e respeitava, por sua modéstia. Coimbra, Rosemberg, Petrus Cariry. Havia tomado uma taça de vinho no almoço. Uma parte de mim pedia para descansar. Comecei me forçando a ver ‘Mãe e Filha’. Depois, não conseguia desgrudar o olho. Avellar e Sanz que me desculpem, mas a Mostra Panorâmica, com ‘Carne e Osso’, ‘Mãe e Filha’ e ‘O Transeunte’, de Eryk Rocha, está melhor do que o que tenho visto à noite. Não compartilhei do entusiasmo que ‘Uma Longa Viagem’, de Lúcia Murat, provocou em Paulínia. Decepcionei-me com ‘O País do Desejo’, de Paulo Caldas, com sua melodramática história de amor. No debate, do qual vi só um pedaço – tinha ‘trocentas’ matérias -, o diretor disse que não quer ficar com o rótulo de cineasta social nem do Recife, cineasta ‘tapioca’, como disse. Ele muda o foco, filma a elite – uma pianista que está morrendo e que será salva pelo amor (carnal) de um padre. A produção é cuidada, as imagens, lindas – e Paulo dedicou a sessão ao diretor de fotografia Paulo Jacinto dos Reis, conhecido como Feijão, que morreu há pouco. Gostaria de ter gostado, mas o melodrama de Paulo Caldas me pareceu desconjuntado demais. De qualquer maneira, não resisto a postar os comentários dos amigos, no jantar após a exibição. Fábio Assunção pode até estar satisfeito com sua carreira no Brasil, mas se tivesse nascido nos EUA não teria para Brad Pitt. Os tietes são os maiores machões do pedaço. Adoram o Fábio. Eu curti a trilha, com César Franck e Eric Satie. E ah, sim, impossível não se lembrar de “Appassionata’, na velha Vera Cruz.