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Cultura » Nós que amávamos o cinema

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Luiz Carlos Merten

15 Junho 2012 | 10h33

Havia pensado em acrescentar um post sobre a morte de JJ De Moraes. Ele não era do meu círculo, cruzamos duas ou três vezes, mas seu livro ‘O Que É Música?’, da Coleção Primeiros Passos, me proporcionou uma iniciação sucinta e forneceu respostas a perguntas que me formulava sobre essa nossa relação tão particular com os grandes compositores. Nem havia acrescentado o post e, chegando hoje tarde à Redação do ‘Estado’ – deve ser efeito dos medicamentos, ‘apaguei’ -, fui atropelado pela notícia da morte de Carlos Reichenbach. De todos os diretores importantes do cinema brasileiro, Carlão era o mais cinéfilo. Nesse sentido, era um pouco o nosso Martin Scorsese. Lembro-me de que houve uma época em que não estava gostando dos filmes dele, houve um lançamento, o do seu volume na Coleção Aplauso, eu até confesso que cheguei meio constrangido – o inimigo na trincheira – para pegar seu autógrafo, mas ele foi muito bacana. Escreveu que ambos amávamos o Scarface de Brian De Palma e isso, acima de todas as diferenças, era suficiente para nos irmanar. Lembro-me que Sara Silveira, sua produtora, me disse um dia naquele jeito rude gaúcho de ser que ia me dar um pau porque eu não gostava do Carlão. Foi quando ele voltou a fazer filmes que me interessaram e dos últimos eu gostei bastante. Como cinéfilo, Carlão foi muito marcado pelas sessões de cinema japonês do Niterói – era isso, não? -, um cinema que nem conheci, na Liberdade. Carlão foi até lembrado aqui no blog por ocasião da morte de Kaneto Shindo. Fomos certa vez a Tóquio, um grupo de críticos e cineastas, levados pela Fundação Japão. Carlão rompeu todo protocolo abraçando Eizo Sugawa, um de seus preferidos, o que deixou Sugawa-sensei ao mesmo tempo lisonjeado e desconcertado. Ele criou a Sessão Comodoro e foi nela que assisti, pela primeira vez, a ‘Cannibal Holocaust’, pelo qual tinha loucura. Nesse sentido, éramos irmãos, realmente. Tem gente que só consegue ver o cinema pelo prisma de Júlio Bressane e Alexander Sokurov, pela vertente da literatura e da filosofia, construindo uma noção de arte que no fundo me parece muito pedante. Carlão era como eu – teve o que Jotabê Medeiros chama de batismo da sarjeta. Eu vi muito filme considerado vagabundo, de autores que eram insignificantes e hoje são cultuados, mas também de diretores que ainda permanecem anônimos na história do cinema, por maiores que sejam no meu imaginário. O meu cinema, como o dele, é suficientemente grande para abarcar a todos. Carlão veio da Boca do Lixo, fez filmes de um recorte muito pessoal – ‘Lilian M’, ‘Amor, Palavra Prostituta’, ‘Império do Desejo’, ‘Extremos do Prazer’ -, antes que ‘Filme Demência’, o seu Fausto, e ‘Anjos do Arrabalde’, que venceu em Gramado, finalmente o colocassem no panteão dos grandes diretores. Sou dos que preferem ‘Dois Córregos’ a ‘Alma Corsária’, detestei o ‘Bens Confiscados’ – tentei rever o filme na TV, mas o tom da interpretação de Beth Goulart me derruba – e amei, amei o ‘Falsa Loira’, que me reconciliou internamente com o Carlão. Fiz uma longa entrevista com ele na estreia do filme, que nem saiu tão longa assim no jornal, mas foi gostoso conversar, dois amantes, pouco ortodoxos, do cinema impuro abrindo o coração paras suas paixões. A minha, Luchino Visconti. A dele, Valerio Zurlini, que também venero. Em honra de Carlão, estou repassando mentalmente as cenas de ‘Verão Violento’ e ‘Dois Destinos’. A guerra explodindo e Eleonora Rossi Drago e Jean-Louis Trintignant, grudados, que dançam ‘Temptation’; a velha avó, Sylvie, que atravessa aquela rua para entrar no asilo, a última imagem que o neto vai ter dela. Qual foi minha última imagem de Carlão? Quando o vi pela última vez? Não importa. O que me vem é o vozeirão e a risada, naquele rosto marcado pelos óculos de fundo de garrafa. Carlão morreu ontem, presumivelmente do coração, no dia em que completava 67 anos. Era porto-alegrense, como eu, que também chego aos 67 em setembro. Tantos filmes ainda para ver… Vai em paz, ouso dizer, amigo.

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