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Nos palcos da vida

Luiz Carlos Merten

02 Dezembro 2009 | 11h25

Estou há dias para postar alguma coisa sobre duas peças a que assisti no fim de semana. ‘Strindbergman’ e ‘O Diabo de Tetas’. Gostei médio da primeira, uma criação de Marie Dupleix com Nicole Cordery, Janaina Suaudeau e Clara Carvqalho, no Viga Espaço Cênico, e me diverti bastante com a segunda, que Cássio Scapin dirigiu com os alunos do curso de teatro da USP. Fui com meu amigo Dib Carneiro Neto convidado por Ando Camargo, que faz assistência de direção para o Cássio e havia trabalhado em ‘Salmo 91’, a peça – premiada – que Dib tirou de ‘Estação Carandiru’, de Drauzio Varella. ‘Strindbergman’ faz dialogarem o filme ‘Persona’ (Quando Duas Mulheres Pecam,), de Ingmar Bergman, e a peça de Strindberg que lhe teria dado origem. Ponho no passado imperfeito porque Bergman e Strindberg têm tudo a ver, e não é de hoje, mas nem na Semana Bergman, em Faro, no ano passado, quando ocorreram aquelas ‘lectures’ – ‘Persona’ foi um dos filmes analisados –, nenhum especialista se referiu ao filme como ‘adaptação’, no sentido literal. Seja como for, achei interessante e totalmente factível o diálogo – o filme teatralizado e recriado no palco, a peça num telão, representada em francês, com direito a legendas. O que me chamou a atenção foi, ou foram, a plasticidade do espetáculo e a sua limpidez, ou despojamento, mas ao mesmo tempo que achava isso bonito me incomodava ficar tão frio, sem empatia, como se faltassem, e realmente faltavam, os elementos de ‘cinema’, as geniais invenções de metalinguagem que tornam o filme tão marcante. Vi ‘Strindbergman’ na sexta e, no domingo, fui ver a farsa de Dario Fo. O Diabo, para expor um magistrado implacável, toma posse do corpo de sua criada. Não conhecia o espaço cênico da USP e ele me pareceu bem bacana. O filme começa como musical – como deveria ser um musical brasileiro, sem a clonagem da Broadway da dupla Botelho/Muller. Achei os atores legais e o clima de deboche – o humor chancho, escrachado –serviu muito bem ao texto, cuja conclusão me parece ter tudo a ver com o que ocorre na política e na imprensa brasileiras por estes dias. Coincidentemente, estava terminando de ler ‘Maigret e o Mendigo’ e Simenon, mais uma vez, me encantou com sua ética ‘fordiana’. Sabe aquela coisa do John Ford – a grandeza dos derrotados? O livro é sobre o inspetor que investiga ataque a mendigo. O cara se apartou da vida social. Sofre um ataque selvagem, mas sobrevive. Tem uma ex-mulher que é rica. Ele não colabora com a investigação, mas Maigret consegue descobrir o motivo e o criminoso, sem poder inculpá-lo, no entanto. O final se refere justamente à serenidade de Maigret que ‘sabe’, mas também tem consciência de que existe um limite além do qual não pode ir. É, basicamente, a mesma situação do editor de ‘O Homem Que Matou o Facínora’, de John Ford, quando descobre a grandeza de Tom Doniphon (John Wayne), mas o que vai prevalecer é a verdade oficial sobre o senador Ramson Stoddard (James Stewart). ‘O Diabo de Tetas’ segue no Teatro da USP até o domingo, dia 20. Vão lá que a diversão é inteligente.

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