Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Norman Mailer

Cultura

Luiz Carlos Merten

12 Novembro 2007 | 08h44

Ellen me cobra alguma palavrinha sobre Norman Mailer, mas ontem eu vim ao jornal para fazer a capa de hoje sobre o lançamento da primeira caixa de DVDs de Leon Hirszman e tive de ajudar a enterrar o Mailer, fazendo um texto sobre sua participação no cinema. Não quis postar nada porque achei que estaria repetindo o texto do ‘Caderno 2’. Mailer foi um autor importante, que encarnou uma espécie de consciência crítica da ‘América’. Mas a verdade é que sempre achei que Mailer, como polemista profissional, era um daqueles autores sobre os quais muito se fala, mas pouco se lê, ou lia. Como ele estava sempre na mídia, por suas declarações bombásticas ou com o pé na crônica policial – esfaqueou a mulher, ou tentou esfaquear, lembram-se? -, nunca foi preciso ler Norman Mailer para saber o que ele estava pensando, ou contra quem estava vociferando. Mailedr dirigiu, ele próprio, alguns filmes. Os primeiros eram de um amadorismo constrangedor, e aí ele fez ‘Tough Guys Don’t Dance’, que aqui se chamou ‘Homens ‘Roxos’ não Dançam’, o que me lembra o Collor, que dizia que tinha aquilo ‘roxo’ e usou para… todo mundo. Não vou exagerar dizendo que ‘Tough Guys’ era bom, mas a história do perdedor que podia ter cometido um crime, mas não se lembra, tinha seus momentos. Além de Ryan O’Neal e Isabella Rossellini, que já havia feito ‘Veludo Azul’ e, portanto, era escolada em bizarrices, Mailer fez aquilo que se poderia chamar de noir ‘weird’, com personagens e situações estranhos, para dizer-se o mínimo. Não tenho uma lembrança muito clara do filme, mas me lembro do pai do Ryan O’Neal, interpretado por Laurence Tierney e que fazia um velho bem piradinho. Valeria rever, acho. Mailer foi ator de Milos Forman em ‘Na Época do Ragtime’ e também de Godard em ‘King Lear’, no qual fazia o próprio rei, aparecendo Peter Sellars (não Sellers) no papel de Shakespeare Jr., que investiga a palavra e a imagem. Como é difícil se falar em roteiro, num filme de Godard, fica a pergunta se Mailer foi mesmo quem fez a adaptação do texto clássico para o diretor francês, aqui assinando seu primeiro filme inteiramente falado em inglês – o que nem os filmes com os Rolling Stones haviam sido. Tem um filme baseado no Mailer cujo título não estou me lembrando. Vou tentar, para ver se memorizo, mas acho que o melhor Mailer no cinema foi ‘Os Nus e os Mortos’, filmado por Raoul Walsh. O filme se chamou no Brasil ‘A Morte Tem Seu Preço’, já que a distribuidora deve ter achado que o original (‘The Naked and the Dead’) não era muito atraente para o público. Estava quase acrescentando o post quando me lembrei de uma coisa e voltei ao texto. ‘Roxo’ como era, machão e até chauvinista – havia sido boxeur quando jovem -, Mailer tinha seu contraponto comportamental, como polemista, em Gore Vidal. Um podia ser mais fino, até ‘afetado’, mas esses caras eram tão críticos. Como dizia o Príncipe Salinas, no clássico de Visconti – o emblema deles era o leopardo, os que vieram depois (e ainda estão aí…) são os chacais.