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Luiz Carlos Merten

28 Junho 2012 | 13h45

Morreu Nora Ephron e eu, na correria de ontem, nem tive tempo de postar sobre a diretora e roteirista de ‘Sintonia de Amor’. O último com as primeiras. Nora Ephron, me informa Flávia Guerra, aqui ao lado, morreu na terça-feira, aos 71 anos, de câncer generalizado, que começou como uma leucemia. Antes de virar cineasta, Nora foi jornalista. Corneada pelo marido, escreveu um livro inspirado na ligação com Carl Bernstein, que formou dupla com Bob Woodward na investigação do escândalo Watergate para o ‘The Washington Post’. O livro foi adaptado para o cinema por Mike Nichols, com Meryl Streep e  Jack Nicholson, e passou no Brasil como ‘A Difícil Arte de Amar’, mas antes disso Nora já escrevera o roteiro do filme anterior de Nichols, também com Meryl – ‘Silkwood, Retrato de Uma Coragem’, sobre a luta da ativista Karen Silkwood para denunciar um caso de vazamento nuclear. Não sei se posso definir Nora Ephron como ‘feminista’, no sentido radical, mas ela com certeza fez cinema para dar voz às mulheres, incluindo-se nessa demanda por expressão, numa sociedade controlada pelos homens (fosse o cinema, Hollywood, ou a instituição do próprio casamento). Nora escreveu também ‘Harry e Sally, Feitos Um para o Outro’, que Rob Reiner dirigiu e tinha aquela cena antológica em que Meg Ryan e Billy Crystal conversam sobre sexo no restaurante, ela diz que é fácil para as mulheres enganarem os homens e prova simulando um orgasmo, o que leva a senhora da mesa ao lado a pedir ao garçon que lhe traga o mesmo prato que motivou o surto de prazer da vizinha. Tenho sempre imenso prazer quando revejo ‘Sintonia de Amor’, com Meg Ryan (de novo) e Tom Hanks, e me encanta a forma como o filme dialoga com o melodrama clássico ‘Tarde Demais paras Esquecer’, de Leo McCarey, que considero, e perdoe-me quem pensa o contrário, um dos filmes mais bem dirigidos dos anos 1950. Os filmes de Nora são comédias românticas que dialogam com gêneros clássicos de Hollywood – e depois de ‘Sintonia’ ela fez ‘Mensagem para Você’, bebendo na fonte de uma comédia de Ernst Lubitsch, ‘A Loja da Esquina’, The Shop Around the Corner, mais uma vez com Meg e Hanks. Nora era filha de um casal de roteiristas, Henry e Phoebe Ephron, e isso explica como e por que o cinema sempre fez parte de sua vida. Não era uma grande diretora, mas, em seus melhores momentos, criou, ou ajudou a criar, cenas memoráveis, que um espectador (eu!) carrego pela vida afora. E Meg Ryan nunca foi melhor do que com ela, ou através dela. Não é pouca coisa.

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