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Luiz Carlos Merten

23 Setembro 2007 | 12h53

RIO – Creio que o essencial sobre Tropa de Elite já foi dito e eu não preciso voltar agora ao filme de José Padilha que será, para o bem e para o mal, com toda certeza, o lançamento brasileiro do ano, dia 12 de outubro. Coisa para falar é o que não falta. Vamos à Première Brasil. Ela foi inaugurada na sexta à noite por Nome Próprio, de Murilo Salles, que incursiona pelo universo dos blogs (o nosso universo). O filme conta a história de Camila, uma aspirante a escritora que expõe publicamente sua vida íntima (no blog), com todas as conseqüências daí decorrentes. Desculpem-me a rudeza, mas como não é todo homem que está a fim de ver seu… pênis – ia usar a versão chula, que também começa com P, mas não precisa – exposto na internet, a egoista e autocentrada Camila termina colhendo as confusões que planta. Sei que a personagem é real – embora o filme, lógico, seja ficção -, mas não me lembro o nome e nem adiantaria, porque eu não leio blog de ninguém. Sinto muito. Leia o meu quem quiser, comente, mas eu não leio o dos outros. Achei a personagem insuportável e o filme, apesar da riqueza de linguagem – o diálogo de mídias e formatos -, também me pareceu excessivo. Vânia Debbs é uma grande montadora e eu, que a encontrei brevemente ontem à noite, na exibição de A Casa de Alice, acho que a própria Vânia concordaria que uma boa meia-hora de corte, no mínimo, ajudaria a podar Nome Próprio de seus excessos, tornando a angústia da personagem, quem sabe, menos histérica (ou mais verdadeira). Mas eu confesso que, mesmo não gostando de Nome Próprio, gostei de ter visto o filme. Numa reprise de Nunca Fomos tão Felizes, o primeiro filme de Murilo Salles – foi na TV, no Canal Brasil -, escrevi que o filme tinha um lado ‘loseyniano’ muito forte. Encontrei depois o Murilo e ele me disse que não conhecia Joseph Losey a ponto de acusar a influência, mas ela se manifestava lá pelo espaço (o apartamento) e pelos movimentos ritualísticos de câmera. Amo Nunca Fomos tão Felizes e a sua linguagem me parece muito mais rica do que a de Nome Próprio, por mais moderninho que seja. O espaço fechado voltou na obra de Murilo em Assim Nascem os Anjos, estava no filme anterior, com Rocco Pitanga, cujo título sempre esqueço, e volta aqui. Essa obsessão por espaços fechados, por portas que se fecham sobre os personagens é uma coisa muito de Losey, embora o movimento, para Camila, muitas vezes seja inverso – ela arromba portas, como arromba a própria vida. Quando digo que achei a personagem insuportável, não é ela, em si, mas a forma como é retratada. Losey fez um grande filme sobre uma mulher manipuladora, cínica, sádica e cruel, com os outros e consigo mesma – Eva. Mas ele filmou Jeanne Moreau em Eva com distanciamento crítico, aplicando no cinema postulados que Brecht havia criado no teatro. O problema de Camila é que faltou distanciamento crítico. Isso e 30 (ou 40) minutos a mais me derrubou. Leandra Leal é de uma entrega física e emocional absurda no papel. Ela foi fundo, mas isso não humaniza Camila. Eu, por exemplo, fiquei olhando aquela mulher sem sentir a mínima empatia por ela.

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