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Luiz Carlos Merten

19 Março 2008 | 08h32

Lúcio, me desculpe, mas vai sem parágrafo e vai ser um post longo. Dib Carneiro Neto ganhou ontem o prêmio de melhor autor na etapa paulista do Shell e Rodolfo Vaz foi melhor ator, ambos por ‘Salmo 91’, que o Dib, grande amigo e editor do ‘Caderno 2’, adaptou de ‘Estação Carandiru’, de Drauzio Varella. Gabriel Villela também concorria ao prêmio de direção, mas o júri do Shell preferiu Cibele Forjaz, por ‘Vaivém, o Caminho dos Mortos’, um espetáculo sub-Zé Celso do qual, decididamente, não gosto. Mas eu achei bonito o agradecimento de Cibele, sua defesa apaixonada do teatro de grupo, a reivindicação de uma política de Estado para o teatro e a convocação para as manifestações que ocorrerão em todo Brasil, no dia 27, Dia Internacional de Teatro, justamente pró-teatro comunitário e de grupo. Vamos nos mobilizar! Isso era o dia-a-dia nos anos 60 e 70, hoje a mobilização virou uma utopia de malucos que alguns chamarão de ‘anacrônicos’. Mas não estou aqui para falar do Prêmio Shell e sim, de uma coisa que vem me comendo por dentro desde que revi o ‘Salmo’ na estréia carioca, na semana passada. Estava no Rio visitando o set de ‘Bonitinha, mas Ordinária’ – capa de hoje do ‘Caderno 2″ – e terminei ficando para a estréia. Ao contrário de São Paulo, onde vários monólogos do ‘Salmo’ foram aplaudidos em cena aberta, no Rio o público reservou seu aplauso estrondoso para o final e, durante o espetáculo, apenas Rodolfo Vaz foi aplaudido, em cena aberta, por sua criação como Véronique. A dublagem de ‘Índia’, quando o Rodolfo vai perdendo a sincronia labial, o desabafo do traveco que conta como é poderosa e está ali, naquela privada, se esvaindo em m…, vítima terminal da doença maldita, toda a mise-en-scène da cena é coisa de gênio do Gabriel Villela. Mas o que me interessa é ‘Índia’. Sou das antigas. Conheço a música nas versões anteriores à de Gal, com harpa paraguaia e tudo. Fui uma vez ao Paraguai, com minha ex-mulher. Não gostei particularmente do país, mas achei muito interessante aquela terra vermelha e as cataratas são realmente impressionantes, coisa que todo mundo deveria ver pelo menos uma vez na vida. Quero confessar que, no cinema, adoro aquela região. Se me pedissem para escolher um filme internacional para levar para uma ilha deserta, eu não pensaria duas vezes e pegaria o ‘Rocco’, do Visconti, mesmo que depois ficasse pensando que talvez devesse ter escolhido ‘Hiroshima, Meu Amor’, do Resnais, ou ‘Rastros de Ódio’, do John Ford. Se fosse para escolher um brasileiro, e um só, não tenho dúvidas de que seria ‘Selva Trágica’, que Roberto Farias adaptou do romance de Hernani Donato, sobre o trabalho escravo de homens e mulheres nas plantações de mate. Não conheço plano mais terrível, em toda a história do cinema brasileiro, do que aquele em que a câmera, plantada no solo, acompanha o esforço sobre-humano daquele ‘xanga-y’ (é assim que se escreve, não?) para levantar a carga de mate que o esmaga. Com a imagem, me vem a partitura (de Remo Usai). Acho que Beto Brant fez filmes muito interessantes – e alguns de que gosto bastante – depois, mas meu favorito continua sendo o primeiro, ‘Os Matadores’, justamente por causa da fronteira paraguaia e do tipo de personagem que habita aquele território (e aquela ficção). Amei ‘Hamaca Paraguaya’, quando vi o filme de Paz Encina em Cannes. O Paraguai me fascina – sua tragédia histórica, que Augusto Roa Bastos enfocou em ‘Yo, el Supremo’, o fato de o país ter virado uma imensa fronteira de falsificação e contrabando. Isto posto, quero confessar que sempre lamentei não haver assistido – nunca! – a ‘Noites Paraguayas’, de Aloysio Raulino. Certa vez, disse isso para ele e o Raulino até prometeu me arranjar uma cópia, mas nada. Na próxima semana estréia o ‘Serras da Desordem’, de Andrea Tonacci, no qual ele é fotógrafo. Quem sabe eu reencontro o Raulino e cobro a velha dívida? Morro de vontade de ver ‘Noites Paraguayas’. Tudo isso me veio enquanto ouvia o Rodolfo Vaz imitando a Gal no ‘Salmo’. Pensei com meus botões – será que a própria Gal iria ver o espetáculo? Acharia desrespeitoso? Eu acho aquilo a arte do teatro em toda a sua grandeza.