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Luiz Carlos Merten

18 Janeiro 2012 | 23h12

E por falar em Luchino Visconti – leiam post anterior -, ao chegar ontem em casa me esperava o novo pacote da Versátil, com um Fritz Lang do qual tenho boa lembrança, ‘O Segredo da Porta Fechada’, e um Visconti que me desconcerta, ‘Noites Brancas’.  No seu álbum sobre o grande diretor,. Bruno Villien diz que se trasta de uma obra à parte na carreira de Visconti, um sonho sobre o sonho e os sonhadores. Sempre achei impressionante a história, que reproduzo sem saber se é verdadeira,. segundo a qual Visconti quase enlouqueceu seu produtor, Franco Cristaldi, embalando o filme em tule. Explico – em vez de filtros, para criar a atmosfera de sonho, a neblina, ele preenchia o espaço entre a câmera e os atores com tule – para que a névoa não se mexesse! –  e aplicava o canhão de luz para forçar a densidade (e evitar que ficasse transparente). Não sei ciomo se faz isso tecnicamente, mas sempre gostei da história, que Villien conta recorrendo a depoimentos do diretor de arte Mario Garbuglia e do fotógrafo Giuseppe Rotunno (e, por isso mesmo, deve ser verdade). Visconti era louco por tule, que evocava sua mãe, Carla Erba, que adorava se envolver de tule para suas noitadas no Scala de MIlão e foi assim, envolta no tecido, que ele a reviveu, como a mãe de Burt Lancaster nos flash-backs de ‘Violência e Paixão’, interpretada por Dominique Sanda.  ‘Noites Brancas’ não era único somente na obra viscontiana, mas no próprio cinema italiano de 1957. Visconti, conscientemente, quis ir contra a corrente num momento em que o cinema italiano voltava a professar um realismo documentário, mas, ao invés de uma irrealidade, o que ele quis foi criar uma realidade ‘inventada’. Dizia que, para ser fiel a Dostoievski, ele não apenas tinha de ser teatral. Tinha de ser também ‘falso’. E foi assim que surgiu a história de Marcello Mastroianni, que se apaixona por essa aparição, Maria Schell, mas ela própria vive enamorada de um fantasma, esperando pela volta de Jean Marais. Suso Cecchi D’Amico me disse, quando a entrevistei, que Visconti impregnou Dostoievsky de um ‘profumo’ de Chekhov, como filtrou seu Proust, no roteiro não filmado – e centrado em ‘Sodoma e Gomorra’ -, por Balzac. Tem uma frase que evoca o desfecho de ‘Tio Vânia’, quando Mário (Mastroianni) diz a Natália (Maria) que eles não têm mais nenhum desejo. São artesãos da própria vida, que recriam segundo seus caprichos. Para mostrar isso, o diretor recorre ao casal de marionetes e à dança de Dick Sanders, que Mastroianni reproduz provocando o riso de Maria/Natália. Vou tentar mais uma vez, mas nunca consegui entrar no clima peculiar de ‘Noites Brancas’. Há algo, mas será a artificialidade assumida – que aceito bem em outros filmes, de outros diretorees – que me trava? Não sei, sinceramente. É um filme bonito, inteligente – o uso irônico que Visconti faz da ópera, ‘Barbeiro de Sevilha’, que Natália e sua avó veem. ‘Noites Brasncos’ ganhou o Leão de Prata em Veneza, outorgado pelo júri presidido por René Clair, que teria sido pressionado pelos demais integrantes – o diretor francês, ao que tudo indica, detestava o filme. Quando lhe pediram que comentasse a decisão do júri, Visconti foi debochado. Disse que o silêncio era de ouro e ‘Le Silence Est d’Or’ é o título de um filme famoso de Clair.