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Luiz Carlos Merten

26 Janeiro 2012 | 09h21

TIRADENTES – Pela primeira vez na 15ª edição da Mostra, gostei ontem mais dos curtas que do longa da Mostra Aurora. ‘Corpo Presente’, de Marcelo Toledo e Paolo Gregori, até que decolou bem, após a emocionada fala de Marat Descartes – cada vez melhor ator de cinema -, sobre os acontecimentos de Pinheirinhos. Ele provocou a imediata reação do público do Cine-Tenda, que se levantou para aplaudir a denúncia da brutalidade da polícia, atendendo a uma ordem do Judiciário, no desalojamento (palavra esquisita) de sei lá quantas famílias no interior de São Paulo. Me emocionei, me emociono sempre que vejo gente do bem ainda acreditando que, sim, um outro mundo é possível, e estava pronto para viajar nas imagens de ‘Corpo Presente’,. até porque tenho gostado dos filmes da Mostra Aurora. Mas não deu. “Corpos’ é um filme super-referencial (achei muito feio colocar dois RRs), que remete ao cinema marginal e que, no entanto, põe, por assim dizer, a marginalidade nos eixos, numa realização um tanto comportada. Isso me levou a pensar que talvez esteja havendo uma mudança, não exatamente de conceito, mas talvez de perfil na Mostra Aurora. Os filmes já foram mais ‘pobres’, materialmente. ‘Estrada para Ythaca’ foi feito a troco de nada e é aquela beleza. Perto do filme do coletivo Pretti/Parente, ‘Corpos’ tem ares de superprodução, embora os diretores e o produtor possam dizer que não (e, neste caso, a aparência enganadora teria de ser computada como mérito?) O próprio ‘As Horas Vulgares’, do qual gostei mais, tem potencial para ganhar uma distribuição mais luxuosa do que a aquela que a Sílvia, guerreira, tem oferecido na Vitrine para os filmkes da Mostra Aurora. Saí para jantar com Orlando Margarido e voltei para ver os curtas da Mostra Foco. ‘Máscara Negra’, de Rene Brasil, a cativante história de um machão que se envolve com um travesti – as se3xualidades alternativas estão em alta na Mostra de Tiradentes – e o belo ‘Quando Morremos à Noite’, que Eduardo Morotó adaptou de Bukowski. Havia viajado com o Eduardo na van, no translado de BH para Tiradentes, e fui ser solidário. Não precisava. O filme é muito bom e na sessão anterior de curtas, no Panorama, à tarde, já havia ficado im pressionado com, o ac abamento de ‘Da Origem’, de Fábio Baldo. É curioso como somos contraditórios, às vezes. O fato de um filme ter defeitos nunca diminui a admiração que posso ter por ele, pelo contrário. Existem filmes de que gosto justamente pelos defeitos. Mas me impressiona ver um grupo de estudantes inventar o mundo – ‘Da Origem’ remete à Aurora do Homem, em ‘2001’ e à ‘Guerra do Fogo’ – e por meio de uma realização (num curta!) com direção de arte e maquiagem tão cuidadas. Mas a minha noite ainda ia terminar com aquela notícia pavorosa dos desabamentos no Centro do Rio. Tenho um carinho especial por aquela área, mesmo reconhhecendo que cheguei tarde para circular pela Rua do Ouvidor. Adoro o Amarelinho, na Cinelândia – já sou da casa -, e a sucursal do ‘Estado’, que ficava na esquina da Almirante Barroso agora é na própria Rio Branco. Circulo muito por aquela área. Não sei exatamente o que (nem onde…) desabou, mas é desgraça demais. A morte de Theo Angelopoulos numa noite, essa tragédia ontem. Espero que hoje, sinceramente, a noite seja de paz.