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Cultura » Noiret e Betty Comden

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Luiz Carlos Merten

24 Novembro 2006 | 18h28

É impressionante como as mortes no meio artístico produzem ciclos. Não há nenhuma estatística, nenhuma lógica no que vou dizer, mas a prática de quem trabalha em jornal ensina que um grande morto nunca vai sozinho. Depois de Robert Altman, morreram ontem Philippe Noiret e hoje Betty Comden. Vamos começar por ela. Você é capaz de achar que Betty não é tão importante assim, mas ela é parte integrante da história do musical, tendo ajudado a formatar, com Adolph Green, a história de Cantando na Chuva, que ambos criaram com o objetivo de usar as canções de Arthur Freed e Nacio Herb Brown. Noiret é mais conhecido, claro, e acho que ninguém vai reclamar se eu disser que, na sua longa carreira, ele projetou uma melancolia, ora trágica, ora cômica, que era a marca de seus grandes personagens. Noiret veio dos espetáculos de cabaré, passou pelo TNT, o Teatro Popular da França, e estreou no cinema em 1956, com Agnès Varda, num filme precursor da nouvelle vague – La Pointe Courte. Na verdade, ele já tinha feito pequenas participações em filmes, mas foi aqui que começou, para valer. Quatro anos depois, foi o tio Gabriel de Zazie dans le Métro, de Louis Malle. Nunca mais parou de filmar – com Franju (Thérèse Desqueyroux), Abel Gance (Cyrano et D’Artagnan), René Allio (L’Une et l’Autre) e até Hitchcock (Topázio). O mais curioso é que este grande ator francês teve no cinema italiano as que talvez sejam as maiores interpretações de sua carreira, aquelas pelas quais é mais lembrado – o velho projecionista de Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore, e o Neruda ficcionalizado por Antonio Skármeta de O Carteiro e o Poeta, de Michael Radford. Noiret e Altman tinham a mesma idade, 81 anos. Um diretor, o outro, ator. Dá sempre um vazio quando se pensa em mortos dessa estatura, que fazem parte do nosso imaginário. Devemos grandes filmes a Altman, grandes atuações a Noiret. Serão sempre lembrados por isso.