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Luiz Carlos Merten

12 Agosto 2011 | 09h50

GRAMADO – Dois dias sem postar, quarta e quinta, e olhem que não foi por falta de vontade. Mas meus dias têm sido muito corridos. Pela manhã, entrevistas, coletivas e os textos do jornal, incluídos os filmes na TV, que estou fazendo da serra gaúcha. À tarde, filmes e mais filmes. À noite, filmes, as competições de longas brasileiros e latinos. Meus amigos José Carlos Avellar e Sérgio Sanz que me desculpem, porque imagino – na verdade, sei – que sua intenção não é essa, mas a seleção parece querer demonstrar a superioridade dos filmes latinos sobre os brasileiros. Com raríssimas exceções – casos de ‘Riscado’ e ‘As Hiper Mulheres’ -, os filmes brasileiros têm sido bem decepcionantyes. Ontem, foi cravada a última estaca nas nossas – nas minhas – esperanças. Tenho um carinho muito grande por Reginaldo Faria. Com ele, quase não tenho contato. Falo mais com seu irmão, Roberto, que dirigiu aquela trilogia – ‘Cidade Ameaçada’, ‘Assalto ao Trem Pagador’, que completa 50 anos em 2012, e a obra-prima ‘Selva Trágica’, meu filme brasileiro do coração, como carrego comigo op ‘Roccpo’ de Visconti. Reginaldo é atopr dos três. Como diretor, iniciou o ciclo da comédia urbana – ‘Os Paqueras’, ‘Os Machões’, ‘Pra Quem Fica Tchau’ -, e fez uma bela adaptação de Plínio Marcos, ‘Barra Pesada’, que foi premiada aqui mesmo, em Gramado. Depois de longa ausência – e complicações de saúde -, Reginaldo subiu ao palco com a numerosa equipe gaúcha de ‘O Carteiro’ para apresentar o filme produzido e rodado no Rio Grande do Sul, em Nova Vêneto. Creio que é melhor, honestamente, silenciar sobre ‘O Carteiro’. Com alguma boa vontade, podem-se citar dois ou três momentos, dois ou três personagens, mas a sensação que tive foi de platitude. A história do carteiro que viola correspondências por amor não tem muito nexo, o humor é ralo, encenado como se Reginaldo estivesse nos primórdios do cinema – logo ele, que tinha aquela pegada tão gostosa – e, quando a farsa se instala, eu, pelo menos, já contava os minutos para fugir ao que virara um constrangimento. É pena, porque a equipe local estava entusiasmada e lotou o palco do Paláscio dos Festivais num clima de festa que ‘O Carteiro, infelizmente, não comportava, Para falar do festival como um todo, tive minha melhor noite na terça, quando foram exibidos o chileno ‘La Leccion de Pintura, de Pablo Perelman – melhor filme da mostra latina, com o argentino encantador ‘Medianeras’, de Gustavo Taretto – e o nacional ‘As Hiper Mulheres’, de Leonardso Sette, Carlos Fausto e Takumã Kuikuro. Tem gente que morre só de pensar em assistir a filmes de índios. O filme de… demorou exatamente 20 minutos para me apanhar. Começa num tem,po que não é o nosso, numa aldeia do Xingu, onde se discute se será possível realizar uma cerimônia. Ela é exclusiva das mulheres, que cantam e dançam e o problema é que uma das cantoras, a principal, está doente. O filme não é propriamente sobre o ritual, mas ele está no centro do filme e celebra a força e a sexualidade das mulheres, que chamam os parceiros na ‘chincha’ (e muitos deles arrepiam). O filme é sobre a transmissão do conhecimento, sobre esse velho pai que vai recuperando na memória os cantos que transmite à filha. Depois da lição de pintura de Perelman – um pintor frustrado de província desperta a vocação de um garoto e, de repente, é o golpe militar que transforma vida de todo mundo -, a lição de canto dos indígenas brasileiros. Como eu disse, durante exatamente 20 minutos me entediei. E, então, o velho índio vem cantarolando pela estrada, a filha também cantarola (em outro atalho) e, clique, me transportei para dentro do filme, desfrutando da suntuosidade de sua mise-en-scène. Documentário, ficção, desfronteiras. Duvido que o júri tenha culhão, sorry, para premiar ‘As Hiper Mulheres’, mas adoraria que isso ocorresse, assim como gostaria de ver Perelman – é seu primeiro filme desde ‘O Arquipélago’, com o qual veio a Gramado há 16 ou 18 anos – levar o Kikito para casa. O post está enorme. Vou fazer uma pausa.