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Cultura » No Velho Oeste, com Ed Harris

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Luiz Carlos Merten

07 Dezembro 2008 | 10h14

Havia encontrado Rodrigo Fonseca numa junkett aqui mesmo em São Paulo, no Hyatt da Marginal. Nem me lembro mais qual era o filme (‘Ensaio sobre a Cegueira’?), mas eu já havia visto e comentado aqui no blog o ‘Appaloosa’. Rodrigo me observou que era tipo de filme do qual só nós dois iríamos gostar. Não imagino qual tenha sido a receptividade crítica ao western que estreou anteontem, mas como este blog é um território por excelência do gênero, lá vamos nós falar sobre o bangue-bangue dirigido e interpretado pelo Ed Harris. Aliás, permitam-me acrescentar que nem sabia da existência do filme. Em geral, não sei quem está fazendo o quê, pois não vivo navegando nesses sites de novidades (talvez devesse). Agora mesmo, alguém me pediu prognósticos sobre o Oscar, e vocês sabem como sou ruim neste departament, mas o cara (quem?) citou o novo filme de Sam Mendes com Leonardo DiCaprio e eu quase fui pesquisar para saber que raio de filme é esse. Não faço a menor idéia. A primeira referência que ouvi sobre ‘Appaloosa’ foi do próprio Viggo Mortensen, quando o entrevistei no Festival do Rio, sobre ‘O Bom Homem’, de Vicente Amorim (que estréia no dia de Natal) Nem sabia que era dirigido pelo Harris, mas aí fui a uma junkett em Los Angeles – ‘Quantum of Solace’ -, dei uma passada pelo Grove e terminei assistindo a dois filmes. Um foi o ‘Appaloosa’ e o outro, o ‘Rede de Mentiras’ de Ridley Scott, que também já estreou. Não havia gostado nem um pouco de ‘Pollock’, que Ed Harris dirigira anteriormente. Aliás, não foi nem uma coisa de ‘não gostei’ – não consegui entrar no filme. Havia ali um duplo movimento – o abstracionismo do pintor Jackson Pollock e o realismo quase miserabilista de sua vida, que foi uma m… – que não me convenceu. Criou-se uma barreira e eu fiquei só olhando, apreciando o trabalho da Marcia Gay Harden, que ganhou o Oscar de coadjuvante, e vendo como o Pollock foi um daqueles sujeitos que não precisavam de desafetos porque seu maior inimigo já era ele mesmo. Não morri de amores, mas achei pelo menos mais interessante do que aquela reducionista abordagem de James Ivory sobre o gênio do artista – ‘Surviving Picasso’ -, que me pareceu uma coisa horrorosa. Ivory, que tem lá seus momentos, é um diretor aplicado, mas não entende o gênio e reduz Picasso a um monstro devorador de mulheres. De volta a ‘Appaloosa’, tenho a impressão de que Ed Harris curte o western clássico e não é muito chegado ao revisionismo de Clint Eastwood (embora seu bangue-bangue seja bastante desmistificador de códigos tradicionais do gênero). Arrisco um palpite que espero um dia ter oportunidade de conferir, entrevistando o próprio Harris (ou o Viggo, de novo). O diretor de ‘Appaloosa’ deve adorar ‘Paixão dos Fortes’ (My Darling Clementine), de John Ford. Sua descrição do cotidiano da pequena cidade e o choque entre civilização e barbárie tem algo da precisão e da minúcia fordianas. Nada é abstrato, ao contrário da pintura de Pollock. O que talvez ligue os dois filmes é o tema do casal, mas me antecipo. Ed Harris e Viggo Mortensen, o xerife e seu ajudante, formam uma dupla que você já viu muitas vezes. Ambos chegam para limpar a cidadezinha controlada por Jeremy Irons (há tempos que ele não estava tão bem, transformado, por facilidade ou exigência dos produtores, em caricatura de si mesmo). No início, até achei que o Harris fosse partir para o revisionismo e até desconstrução à ‘Brokeback Mountain’ – os dois caras solitários, a dedicação do personagem de Viggo ao do ator/diretor. Mas as possíveis – e veladas – sugestões iniciais de homossexualismo são logo escanteadas pela entrada em cena da mulher. Já escrevi no meu texto no ‘Caderno 2’ que nunca houve uma mulher como Renee Zellweger no Velho Oeste. Num certo sentido, ela é como ‘Gilda’. Na tradição fordiana, a mulher é o elemento agregador, da família e da ordem social. Renee, na sua dependência do macho, qualquer macho, é outra coisa e eu tenho a impressão de que sua personagem desconcertante contribui para a complexidade que vi em ‘Appaloosa’. Adorei a cena da casa em construção, à qual ela leva Viggo Mortensen para que ele conheça seu futuro ninho de amor com Ed Harris. Mas lá, sem a menor cerimônia, Renee avança sobre o cara. Acho muito interessante aquele tipo de construção espacial. A casa inacabada, sem paredes nem teto, é sempre uma representação da precariedade dos sentimentos (e das relações…) que mexe comigo. Quero rever ‘Appaloosa’. Não creio que seja um grande filme, mas gostei mais do que do remake de ‘Galante e Sanguinário’ (3:10 to Yuma), de Delmer Daves, agora com Russell Crowe e Christian Slater nos papéis que haviam sido de Glenn Ford e Van Heflin. Acho que há toda uma discussão muito atual sobre a questão da violência. Matar a sangue frio, matar em proveito próprio ou em nome da lei. O próprio duelo final me parece muito mais entre um homem e sua consciência do que entre dois (ou mais) homens, como costuma ser. Já que citei John Ford, vou citar também Richard Brooks. A reviravolta durante a caçada à seqüestrada tem muito a ver com ‘Os Profissionais’, ou não? E mais não digo para que não me acusem de haver entregado o ouro.