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Cultura » No reino do western

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Luiz Carlos Merten

25 Fevereiro 2010 | 09h00

PARIS – Acabo de abrir meu e-mail para enviar as matérias da edição de amanhã do ‘Caderno 2’ e também validar os comentários dos posts. entre vários comentários – as correções gramaticais de Marcelo Magalhães, devidamente anotadas -, encontrei o de meu amigo Sérgio Leeman, que também está aqui em Paris e adivinhou que, se eu aqui estivesse, teria ido ver ‘O Passado não Perdoa’. Como perder o western alucinado de John Huston em película? Estou no meu hotelzinho de sempre, o Argonautes – Elaine Guerini e Dib Carneiro acham podre; para mim, é uma simpatia e a localização, pertinho de Notre Dame e do Sena, não poderia ser melhor. Adoraria encontrar o Sérgio para tomar um café. Amanhã, às 2, pretendo (re)ver ‘A Conquista do Oeste’ e sábado, às 11, ‘A Vida Íntima de Sherlock Holmes’, de Billy Wilder. Hoje, vou ver coisas novas, ‘A Single Man’ e ‘Liberté’, o novo Tony Gatlif, sobre a shoa (holocausto) dos ciganos durante o nazismo, na França ocuoada. Aproveito para assinalar – dei uma olhada na programação da Cinemateca, que exibe esta semana, numa série Trésors du Monde, o ‘Terra em Transe’ de Glauber Rocha. De volta a Berlim, a retrospectiva do 60º festival exibiu ‘Antônio das Mortes’, como ‘O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro’ é internacionalmente conhecido. Como todo filme da programação, ‘O Dragão’ teve direito a um jornalzinho especial, com a foto de Visconti outorgando a Glauber o prêmio de direção que ele recebeu (em Cannes). Abre aspas para a frase de Visconti – ‘Antônio das Mortes é o melhor filme que eu vi este ano.’ Não é pouca coisa, como não é pouco o que escreve Martin Scorsese, dizendo como, após assistir a ‘Terra em Transe’, descobriu que esse outro filme de Glauber estava em cartaz em Nova York, foi ver ‘Antônio das Mortes’ (O Dragão…) e viu uma das obras mais fascinantes do cinema. Já disse e repito que, por mais interessante e até genial que seja ‘Terra em Transe’, ‘O Dragão’ é o ‘meu’ Glauber. Isso posto, confesso que me decepcionei um pouco na última vez que o vi, no Brasil, após a restauração. No meu imaginário, o duelo de sabre entre Antônio das Mortes e Coirana era filmado de um jeito – cortes sincronizados e de idêntica duração, com movimentos de câmera para a esquerda e a direita, acompanhando os atores. No filme não é assim. Ouso parafrasear André Bazin, que comentou uma cena de um clássico de William Wyler com o próprio diretor e concluiu, após ouvir a explicação do cineasta, que o filme dele – o que tinha pensado – era melhor. Acho que não é preciso explicar o título do post, nem o por quê de estar lembrando Glauber depois de falar de tantos westerns aqui em Paris. Glauber ele mesmo deu aquela entrevista citando ‘Rio Vermelho’, de Howard Hawks, como uma de suas referências para ‘O Dragão’.