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NO OLHO DO FURACAO

Luiz Carlos Merten

11 Setembro 2006 | 12h37

Há cinco anos, no calor da hora, com todo preconceito da esquerda mais festiva, escrevi no Estado que a vingança de Hollywood seria terrível pelo ataque ao World Trade Center. Haviam motivos para isso. O cinemão vinha numa série de filmes em que os árabes, senão culpados, eram sempre suspeitos. Daí a achar que Hollywood iria ressuscitar Rambo e Braddock parecia a conseqüência lógica. Esses dois brucutus, interpretados por Sylvester Stallone e Chuck Norris, venceram na ficção a Guerra do Vietnã, que os EUA haviam perdido na realidade. Com certeza, pegariam em armas, novamente, para enfrentar o terrorismo. Stallone até que tentou, mas seus Rambo Vs. Osama Bin Ladden nunca saiu. O que se verificou foi uma politizante cresdcente da produção de Hollywood.
Não falo só nos grandes autores. Os pequenos filmes, mesmo comédias tolas, tratam, agora, com freqüência, do tema da quebra de confiança nas instituições, mesmo que seja aplicado às relações interpressoais. Foi mais ou menos o que ocorreu no cinema dos EUA, por volta de 1975, após o escândalo de Watergate. O melhor filme daquela época não foi Todos os Homens do Presidente, de Alan J. Pakula, sobre Watergate, mas Um Lance no Escuro, de Arthur Penn, com seu personagem, interpretado por Gene Hackman, que tentava se manter íntegro num mundo de desconfiança e corrupção.
Steven Spielberg, o homem que mais representa o cinemão, tem sido o campeão da tendência. Escrevi, também no Estado, que ele era o mais democrático dos diretores porque tratava tudo do mesmo jeito – como parque temático –, fosse o Holocausto (em A Lista de Schindler) ou os monstros antediluvianos de Michael Crichton (Parque dos Dinossauros). O democrata radicalizou. Fez, com O Terminal, Guerra dos Mundos e Munique, o que não deixa de compor uma trilogia, um bloco de filmes de rara coerência dramática sobre (e contra) a era George W. Bush. O problema é que Spielberg não é George Moore. Como cineasta, como autor, ele diz as coisas por meio de seus filmes e entenda quem, quiser.
Tudo isso é um pouco para assinalar a data de hoje, mas também para lavrar uma carta de princípios. Neste blog que hoje começa, vou tentar, tanto quanto possível, ver o cinema sem parti-pris nem preconceito. Não é fácil. A gente muitas vezes se deixa levar pela emoção, o sangue ferve e o raciocínio embota. Os grandes filmes sobre o 11 de Setembro têm sido alegóricos ou metafóricos. Houve um ou outro tratando diretamente do assunto. Os que fazem o corpo-a-corpo estão chegando agora – Vôo United 93, de Paul Greengrass, e World Trade Center, de Oliver Stone. Ainda não vi o de Stone, mas o de Greengrass, com seus heróis anônimos, não vale um por cento o Munique de Spielberg. É sentimental e manipulador. Hollywood, nossa inimiga, que domina os mercados mundiais (e faz do cinema brasileiro um estrangeiro na própria casa), surpreendeu. Seria bom dizer, aqui, que o cinemão fez exatamente o que se esperava, mas não. O mundo está cada vez mais complexo. Não basta ser convidado para a ilha de Caras para ser, automaticamente, do mal. Seria muito simples se fosse assim.