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Luiz Carlos Merten

27 Setembro 2006 | 11h50

Gostei demais do novo filme do Cao Hamburger, O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias, que passou ontem na Première Brasil. Confesso que tinha um pouquinho de má vontade. O filme se chamava, originalmente, Minha Vida de Goleiro, um título que me agradava, mas o Cao foi convencido (pela Buena Vista, pelos Gullanes, produtores dele) de que tinha de mudar. A alegação é que mulher não vai ver filme de futebol e mulher é que leva homem ao cinema. O novo título me lembra, desagradavelmente, Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios, do Emir Kusturica. O desagrado terminou logo que vi O Ano, que tem uma história muito forte, muito bonita. Logo no começo, os pais levam o menino para a casa do avô, só que o avô morre e o garoto, um gói, não judeu, termina adotado pela comunidade judaica do Bom Retiro. O ano é 1970, de Copa do Mundo, as férias do título são uma metáfora da entrada dos pais na clandestinidade, nos duros anos da ditadura. O menino, Mauro, quer ser goleiro e espera o pai, que prometeu voltar para o jogo final. A história, insisto, me apanhou. Quando o filme terminou, fiquei meio desorientado. Existem tantos temas – a família, o futebol, a ditadura, o choque cultural. Foi o tempo de um café e percebi que subtemas existem muitos no filme do Cao, mas o tema dele é o exílio do garoto. Não o exílio físico, geográfico, mas o exílio interno do Mauro, privado do pai, da mãe, um estranho na própria casa. Muitos amigos meus, nos anos 70, saíram do Brasil. Eu fiquei, já era jornalista em Porto Alegre, buscava brechas para falar da ditadura, da repressão. E sempre me senti meio exilado na minha pátria. Acho que, como eu, tinha muita gente com o mesmo sentimento. Me deu um nó na garganta. Contei isso para o Cao, quando o encontrei e ele ficou tão contente que me abraçou. É isso!, disse. Cao está dando uma bela contribuição à Première Brasil do Festival do Rio 2006, que é, por si só, um motivo e tanto para ficar no Rio, durante os 15 dias do festival.