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Luiz Carlos Merten

27 Março 2012 | 08h23

Ando meio relapso com o blog, mas a verdade é que, nos últimos dias, entrei numa maratona de ver filmes no É Tudo Verdade, com passagens pelo teatro – para ver ‘Adultérios’ – e ontem uma tarde inteira no consulado dos EUA para renovar meu visto de imprensa. Eles mudam, mudam para tentar agilizar/melhorar, mas é muita gente querendo viajar. Sem brincadeira, mas na Rodoviária do Tietê, no dia a dia, tem menos gente. Fui rever ontem à noite a ‘Tina’, de Wim Wenders. É uma piada. Sei lá, deve fazer uns dez anos, ou mais. Pina Bausch veio ao Brasil, ao Rio, a sucursal enviou uma matéria que reescrevi, tudo certo, mas na hora de fazer o título lasquei uma Tina (Turner?), ao invés de Pina (Bausch?). Claro que passou pela revisão, por não sei mais quem e, no dia seguinte, o episódio estava ‘colado’ à minha biografia ‘oficial’. Acho graça, mas não é esse meu sentimento diante do filme de Wenders. É de êxtase, admiração. Nem sei mais por quê, mas no ano passado, em Berlim, muitos coleguinhas não gostaram do ‘Pina 3-D’. Pior para eles. Revendo ontem o filme, me projetei no espaço e o 3-D lança a gente dentro da criação da bailarina e coreógrafa, uma coisa impressionante. Mas Wenders faz mais – os dançarinos do Tanztheather Wupperthal falam de Tina como uma psicanalista, uma feiticeira, que conseguia ver dentro deles, através dele. Wenders grava os depoimentos e faz com que eles os ouçam, enquanto olham para a câmera. É uma viagem no interior daqueles artistas, um grupo heterogêneo, cosmopolita, formado por jovens e velhos. Dancemos, dancemos, senão a vida não tem solução. No final, não queria nem falar. Lembrei-me de um filme completamente diverso – ‘A Festa de Babette’, quando os convidados saem do banquete de Stéphane Audran. Ninguém diz nada. Por meio da comida – ontem, do alimento para a alma –, eles (e eu) chegamos ao nirvana. Tive um pouco essa sensação, mas em dose menor, ao ver ‘Planeta Caracol’ no É Tudo Verdade. Gostei demais do documentário coreano sobre um cego, surdo e mudo que tem uma guardiã, o seu anjo da guarda. Ele é um artista. Falam de morte, de eternidade e o filme acompanha a rotina de ambos. Lembrei-me de ‘O Milagre de Anne Sullivan’, de Arthur Penn; de ‘Meu Pé Esquerdo’, de Jim Sheridan. Uma coisa é tratar desse assunto como ficção. Outra, bem diferente, como documentário. Eu, ali, viajando. Havia um terço de sala, se tanto, no CineSesc. As pessoas, que não fizeram a mesma viagem que eu, iam saindo, aos borbotões. De repente, tomei uma pancada na cabeça. Sei lá o que o animal carregava, para ter me batido daquele jeito. Poderia ter me irritado, mas estava em outra. No meu país, o cinema.

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