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Luiz Carlos Merten

10 Janeiro 2011 | 10h55

Embarco hoje para Paris. Achei que meu voo era à noite,. mas ele teve de ser antecipado e estou indo à tarde. Estou na redação do ‘Estado’, mas vou ter de passar em casa para fazer mala, resolver assuntos pendentes, essas coisas. Jotabê Medeiros, que chegou há pouco, me provocou. Disse que foi ver ‘Além da Vida’, considerou o filme uma cagada monumental de Clint, mas quando sugeri que ele escrevesse contra no ‘Caderno 2’, Jota tirou o time de campo. Disse que Clint, por ter feito ‘Os Imperdoáveis’, pode errar quantas vezes quiser que ele nunca vai jogar pedras. Gostei tanto do filme, que já vi duas vezes. Mas quero falar de Nana Caymmi. Fui ver ontem o show dela. Fiquei chapado. Nana começou cantando seu pai, Dorival, ‘Marina’. À minha esquerda, havia uma senhora, mas o comentário não foi dela. Foi de duas ou três poltronas além. Quando Nana terminou de cantar, outra voz de mulher definiu – ‘Que voz mais asseada!’ Já ouvi falar de voz limpa, mas asseada foi a primeira vez. Gostei. Nana é sempre tão intensa, tão visceral. E canta com a simplicidade, sem afetação. Fiquei me lembrando o tempo todo do documentário de Georges Gachot. Tem gente que implica porque o diretor incluiu um depoimento de Martinália, que não tem nada a ver, mas, conhecendo Gachot, acho que ele o fez porque Martinália faz uma observação específica que ele não deve ter encontrado em mais ninguém. Quando o filme estreia? Me emocionei muito com ‘João Valentão’, também de Dorival Caymmi. Aquilo é cinematográfico. Parece um curta. E a música passa o amor de Caymmi pelo homem comum, uma coisa geracional, de quem acreditava na força do povo. Quando Nana cantou Agustín Lara, ‘Solamente Una Vez’, fiquei pensando. Ele foi casado com a lendária Maria Félix, uma das mulheres mais belas do cinema. Uma estrela, uma deusa. Adoro o título daquele melodrama que ela fez, acho que do Roberto Gavaldón, ‘La Diosa Arrodillada’. Viajei no imaginário e me deu vontade de pesquisar se Agustín Lara fez a música para, ou por, Maria. No final, Nana, aplaudidíssima, voltou para o bis e, no segundo, cantou ‘Smile’. Grande Chaplin. Cinema, de novo. Chaplin compôs ‘Sorri’ para ‘Luzes da Ribalta’, em 1952, mas o filme só estreou nos EUA 20 anos mais tarde, porque na época ele estava na mira do macarthismo. A trilha de ‘Luzes da Ribalta’ ganhou o Oscar ou foi só o de canção para ‘Smile’? Aquela história de fingir, na hora da dor, para que todos pensem que você sorri de verdade me lembra sempre Fernando Pessoa, o artista como fingidor, que finge ser dor a dor que realmente sente. Na saída, encontrei – encontramos, Dib Carneiro estava junto – Maria Adelaide Amaral. Ela é sempre tão carinhosa. Quem me encontrasse às 8 da noite de ontem ia achar que eu estava no Nirvana. Não estaria enganado.