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‘Ninho de Cobras’

Luiz Carlos Merten

15 Outubro 2008 | 13h55

Mauro Brider pega carona em meu comentário sobre ‘Jean Vigo Integral’ para perguntar sobre Joseph L. Mankiewicz. Se eu conheço ‘Ninho de Cobras’ (There Was a Crooked Man)? Pertenço a uma geração que, em Porto Alegre, cultivava o gênio de Mankiewicz. Jefferson Barros o colocava em pé de igualdade com Losey, Minnelli e Godard, como um de seus autores favoritos. Mankiewicz passou à história como ‘cineasta da palavra’, não apenas porque em seu cinema toda tragédia passa sempre pela palavra mas também porque o grande diretor construía sua mise-en-scène por meio do dinamismo dos diálogos, o que faz com que, às vezes, exista uma teatralidade em seu cinema – ‘A Malvada’, ‘De Repente, no Último Verão’, ‘Charada em Veneza’, ‘Sleuth’/Jogo Mortal, a versão com Laurence Olivier e Michael Caine –, sem que ele possa por isso ser considerado ‘teatral’. Mankiewicz adorava os jogos de máscaras e isso transparece no seu único western, que ele fez por volta de 1970, justificando-se, na época, que ‘queria exercitar alguns músculos que estavam enferrujando’. Misturando gêneros – é um western/filme de cadeia/comédia –, ‘Ninho de Cobras’ contrapõe o trapaceiro Kirk Douglas ao íntegro xerife Henry Fonda, mas Mankiewicz reserva uma reviravolta desmistificadora, e muito divertida, no desfecho. Há quase 40 anos, o filme fez sensação por sua abordagem do homossexualismo, e no western, o que faz de Mankiewicz o precursor de ‘O Segredo de Brokeback Mountain’, de Ang Lee. Na verdade, Henry Fonda já havia estado, mais de dez anos antes, em outro western desmistificador que também encarava o homossexuialismo dos ‘mocinhos’ – o deslumbrante ‘Warlock’/Minha Vontade É Lei, de Edward Dmytryk, neste último formando par gay com Anthony Quinn (em ‘Ninho de Cobras’, o par era integrado por Hume Cronyn e quem mesmo? Burgess Meredith?). Mauro observa que, do pouco que conhece de Mankiewicz, não consegue fugir ao óbvio e considera ‘A Malvada’ (All about Eve) seu melhor filme. Eu gosto de ‘A Malvada’, mas minhas preferências se deslocam para ‘A Condessa Descalça”, com Ava Gardner, e – pasmem! – ‘Cleópatra’, com Elizabeth Taylor. Posso até ser brega, mas tenho para mim que as duas cenas mais belas filmadaas por Mankiewicz são aquele travelling lateral acompanhando Richard Burton quando ele galopa com sua espada desfraldada gritando se ninguém nas legiões de Roma vai combater com ele, para que Marcus Vinicius Antonius possa morrer com dignidade, e o plongê que mostra Liz acolhendo nos braços o amado morto. Ela olha para cima, em nossa direção, e diz, shakespearianamente, contemplando o vazio produzido pela morte de Marco Antônio – “E nunca houve tamanho silêncio.” Mankiewicz foi um grande criador de personagens femininas. Face à majestade e erudição da sua ‘Cleópatra’ – que ele detestava, por não ter tido controle sobre o projeto e por haver enfrentado todo aquele carnaval de mídia, decorrente do romance proibido da dupla Liz/Burton –, confesso que a de Júlio Bressane, com Alessandra Negrini, me pareceu meio irrelevante (e olhem que os tableaux-vivants do filme brasileiro são muito elaborados e bonitos).

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