Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Nicholas Ray (2)

Cultura

Luiz Carlos Merten

16 Novembro 2011 | 10h43

Robert Taylor faz um advogado manco em ‘A Bela dos Bas Fond’, que abre hoje à tarde, às 15 horas, a retrospectiva de Nicholas Ray no CCBB. Ele se apaixona pela corista Cyd Charisse e os dois tentam construir uma vida comum (e melhor) na Chicago dos gângsteres, nos anos 1930. Mesmo que o advogado não tivesse aquele defeito físico, seria um dos homens feridos que Ray tanto gostava de filmar. Imagino que, para o público jovem, tenha um significado especial poder assistir, como permite o evento, a ‘Juventude Transviada’ numa tela grande. Logo após a retrospectiva de Elia Kazan na Mostra, que trouxe ‘Vidas Amargas’, outro James Dean. Até porque o ator morreu cedo, e no auge, Dean virou a representação do jovem rebelde, do ‘transviado’. ‘Juventude Transviada’ chama-se ‘Rebel without a Cause’, no original. Rebelde sem Causa. O título é engaoso, como o de ‘A Doce Vida’, de Federico Fellini. Ray não faz outra coisa senão oferecer motivos para a rebeldia de Jim Stark, o personagem de Dean. A família, o pai, a autoridade, a escola, tudo conspira contra ele, o sufoca. Jim cria sua família ideal com Natalie Wood e Sal Mineo, que faz ‘Plato’. Conta a lenda que Sal era gay e Jimmy, bissexual. O próprio Ray seria bi. Teria perguntado a Susan, mas um dos curadores ou organizadores da retrospectiva ficou no quarto de hotel, durante toda a entrevista, e isso terminou por me constranger. Mas o que quero dizer é que Sal amaria Dean, e mesmo não havendo nada entre eles – a não ser o afeto, e chega, não? –, isso passa na tela. O olhar ferido de Plato para Jim. O olhar de Natalie para Dean. O tormento desse último. Ray estudou arquitetura com Frank Lloyd Wright antes de fazer sua opção pelo cinema. O espaço é sempre fundamental em seus filmes. A casa torta, os famosos ângulos da escada, na saída da delegacia e na briga de Jim Stark com o pai, o suntuoso palácio da imperatriz em ‘55 Dias de Pequim’. A arquitetura das cenas, a posição da câmera. Ray dizia que o cinema é a melodia do olhar e Jean-Luc Godard, seu tiete, dizia que ele usava o olhar para revelar o interior dos personagens. Ray, segundo Godard, seria o melhor diretor a revelar o interior dos homens. Anthony Mann, nos westerns, o melhor a filmar o exterior. Se fosse possível juntar os dois, o resultado seria o maior diretor do mundo. Só que a melodia do olhar vai além disso. O fluxo dos olhares conduz a montagem na extraordinária abertura de ‘55 Dias’. Concordo integralmente com a viúva. O filme não é, nem de longe, uma ‘faillure’. Susan prefere, entre todos os filmes do marido, ‘Amargo Triunfo’ e ‘Sangue sobre a Neve’, que se chama ‘The Savage Innocents’, no original. Os selvagens inocentes, ou os inocentes selvagens, eis aí uma boa síntese para o cinema de Ray, tanto quanto ‘o lirismo do homem ferido’ de Jean Tulard (no ‘Dicionário de Cinema’). ‘O Crime não Compensa’, ‘No Silêncio da Noite’, ‘Cinzas Que Queimam’, ‘Paixão de Bravo’, ‘Fora das Grades’, ‘Delírio de Loucura’, ‘Quem Foi Jesse James?’ – são tantos os bons filmes. Os meus favoritos são ‘Amarga Esperança’, ‘Johnny Guitar’, ‘Jornada Tétrica’ e ‘Sangue sobre a Neve’, esses dois de alguma forma dialogam e se complementam no que não deixa de ser uma preocupação ecológica (‘avant la lettre’). E eu, mesmo com risco de ser chamado de brega, amo o sermão da montanha em ‘O Rei dos Reis’, magnificamente filmado – o que são os olhos azuis de Jeffrey Hunter? –, tanto quanto amo a impetratriz Flora Robson e a condessa russa Ava Gardner em ‘55 Dias’. Charlton Heston bebe no filme (Ray bebia no set). A condessa lhe diz algo como ‘mantenha a farda, soldado, ela vai impedí-lo de desabar’. E a imperatriz, despida de suas vestes suntuosas, filmada de cima, repete – ‘A dinastia está acabada’. Depois das retrospectivas de Vincente Minnelli e Elia Kazan (esta, apenas parcial), a de Nicholas Ray fecha 2011 com chave de ouro para o cinéfilo. Estou indo amanhã ao Rio por causa de Antonio Banderas e Salma Hayek. No sábado, de volta, pretendo me entregar ao prazer de (re)ver ‘todo’ Ray.

Encontrou algum erro? Entre em contato