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Luiz Carlos Merten

16 Novembro 2011 | 10h00

Havia publicado a entrevista com a viúva de Nicholas Ray no ‘Caderno 2’ de domingo. Susan Ray veio ao Brasil para prestigiar a abertura da grande retrospectiva que o CCBB dedica a seu marido, em três cidades. São Paulo, Rio e Brasília. Aliás, fico sempre em dúvida. Se o sujeito morreu e a mulher não se casou de novo, diz-se do marido ou do ex-marido? Enfim, também ontem, para o ‘Caderno 2’ de hoje, havia conseguido colocar uma matéria pequena da mostra que começa hoje, mas ela foi derrubada para acomodar a notícia de que ‘Tropa de Elite 2’, indicado pelo Brasil para concorrer à indicação para o Oscar, poderá até chegar à disputa da Academia, mas não passará antes pela triagem do Globo de Ouro, porque estreou antes, em outubro de 2010, quando a regra da Associação de Correspondentes Estrangeiros de Hollywood é que tivesse estreado em novembro daquele ano. Me pergunto se não será assim. Derrotado por nocaute técnico, sempre ficará a suspeita de que o filme talvez pudesse ter concorrido e até ganhado o prêmio, quando, na verdade, o Globvo de Ouro e o Oscar cagam, perdão, para o cinema brasileiro, e não que isso me tire o sono. Mas, de volta a Ray, duas ou três coisas que Susan disse me impressionaram bastante. Quando comentei com ela a definição de Jean Tulard, Ray ou o lirismo do homem ferido, elas me retrucou – quem não é? A diferença é que Ray expunha a própria vulnerabilidade. Ele tinha consciência de sua importância. Andava sempre com um gravador para documentar as próprias conversas. E, sim, Ray bebia e fumava demais, a ponto de o alcoolismo criar problemas e de ele haver morrido de câncer no pulmão. Mais que tudo, Susan disse que a ligação com Wim Wenders foi importante, num determinado momento. Ray estava desacreditado e agradecia a Wenders por lhe haver colocado, como ator, em ‘O Amigo Americano’, mas Susan também deixa claro que acha invasiva a câmera com que o cineasta alemão documentou a agonia de seu marido e que resultou em ‘Nick’s Movie’, Lightning Over Water. Para ela, a morte é o momento mais importante na vida de uma pessoa, o mais íntimo e solitário (o derradeiro, definitivo encontro consigo mesmo?), mas lá estava Wenders. Susan Ray estará hoje à tarde no CCBB para um encontro com o público após a exibição de ‘We Can’t Go Home Again’, que ele fez com alunos de seu curso de cinema. A própria Susan foi estudante, com Ray. Diz que ele era um grande professor e, após a restauração de ‘I Can’t Go Home Again’, seu próximo projeto é um documentário, ‘Masterclass’, reuniondo trechos de filmes e excertos das aulas que Ray dava. Para quem quiser saber maias, ela dirige a nicholas Ray Foundation e o site, nicholasrayfoundation.org, traz todas as informações. Sobre o ciclo, propriamente dito, falo daqui a pouco.