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Luiz Carlos Merten

29 Setembro 2009 | 23h47

Fui ao ex-Tom Brasil, que nem sei mais como se chama, HSBC alguma coisa, para a festa de premiação do troféu Comunique-se. Não ganhei. O vencedor, mais uma vez, foi Artur Xexéo. Meu colega Jotabê Medeiros, cansado de perder – e para o Xexéo -, nem se dignou a aparecer. Quero dizer que acho o Jota o maior repórter de cultura do País, para não dizer o único. Quando vejo essa gente forçando a barra, na concorrência principalmente, para fazer jornalismo de denúncia na área de cultura, tenho engulhos. É mais ou menos como partir do pressuposto de que são todos desonestos e só nós somos puros, o que me parece no mínimo estranho. Jornais que se beneficiam dos mecanismos de patrocínio para suas campanhas de marketing – DVDs ou livros – têm a cara de pau de denunciar os outros, como se a gente não soubesse dessas e outras histórias, muito piores. Deixa pra lá. Não me importo de ter vindo do Rio para perder. Estava com minha filha e amigos, bebemos bons vinhos, vimos um show do Chico Anísio que… Chico faz a dublagem do velho de ‘UP – Altas Aventuras’. A animação é maravilhosa e Chico dá conta do personagem. Seu stand up show no prêmio Comunique-se foi absolutamete escatológico. Só piada de negão, tomar no c… e por aí afora. Mas eu ri muito, confesso. Na mesa sobre TV de sucesso, no Festival do Rio, discutiu-se – discutimos – muito a questão da Globo como emissora familiar, onde certos temas (e expressões) são proibidos. Arregacei. Como vou muito a teatro, confesso que não tenho mais saco de ver essas peças com globais, a maioria de uma mediocridade aflitiva e que o público vai ver na expectativa do momento em que vai ouvir, sei lá, alguém bem novela das 8, mandar seu colega de elenco se f… Como isso e inviável na televisão, basta um m… de um global, no teatro, para a plateia vir abaixo. É uma pobreza tão grande que fico constrangido e por isso mesmo louvo a cotagem de um cara como o Tiago Lacerda, fazendo o Calígula de Albert Camus (e Gabriel Vilella), quando bastaria ele mandar alguém tomar no c…, em um besteirol bem zurrapa, para ganhar muito mais dinheiro. Tergiverso, eu sei. Quero chegar agora a um assunto que tenho engasgado, nos últimos dias. Roman Polanski foi preso, na Suíça se não me engano, e deve ser deportado para os EUA, onde terá de cumprir pena, condenado que foi num caso de abuso sexual. Não li nada na imprensa, mas, pelo que me contaram, a ‘menor’ com quem Polanski fez sexo há não sei quantos anos – uns 20, pelo menos -, retirou a queixa, mas a maioria silenciosa, e conservadora, norte-americana, acha que houve um acordo por baixo do pano e quer ver o cineasta por trás das grades. Polanski é um grande artista, não há dúvida. Tive o privilégio de encontrá-lo algumas vezes. Poucos personagens públicos – ‘celebridades’ – tiveram vidas tão trágicas. Polanski sobreviveu ao gueto, ao massacre de sua família pela família de Charles Manson. Tudo isso é muito trágico, mas não o absolve, claro, de suas responsabilidades. É verdade que a garota, de ‘menor’, como se diz, era uma cavalona. O caso é muito complicado, mas, não sei, do ponto de vista dramatúrgico, pensando em Polanski como ‘personagem’, talvez tenha sido um alívio para ele, que passou as últimas décadas fugitivo. A fuga acabou, É tudo ou nada. O pior, nisso tudo, é que, se Polanski for preso, sua carreira estará encerrada. Nunca mais os filmes de Polanski… Nunca mais é uma palavra, ou são palavras, demasiado fortes, mas podem ser uma realidade neste caso.