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Luiz Carlos Merten

05 Fevereiro 2012 | 08h50

PARIS – OOOiiii! Cá estou eu de novo nesta cidade maravilhosa. Nos últimos 20 anos, tenho estado aqui regularmente duas ou três vezes por ano, sempre aproveitando as idas e vindas do trabalho. Agora mesmo, vim antes para ficar lguns dias, só usando a passagem, porque meu destino é Berlim, na quarta feira. Na quinta, começa o festival. Cheguei na sexta e estava um frio do cão. Tinha matérias e passei boa parte do dia – manhã e tarde – correndo em função delas. Mas, no final da tarde, veio a recompensa. A Filmoteca do Quartier Latin apresenta um ciclo Cinema e Literatura. Justamente na sexta, às 18h20, houve a apresentação ‘Nathalie Granger’, de Marguerite Duras, e a sessão teve direito a Irène Jacob – sim! – lendo trechos dos ‘Écrits’ da autora. Irène Jacob! Viajei nas lembranças. Lembrei-me de meu amigo Walter Hugo Khouri e de como ele amou ‘A Dupla Vida de Véronique’, como achava Krysztof Kieslowski um gênio e como Irène virou um sonho para ele. Ah, se Khouri tivesse tido a chance de filmar com a atriz francesa. Encontrei-a algumas vezes. Em Cannes, em Paris, no Rio. Ela tem um jeito de olhar para as pessoas e sorrir que dão a impressão de que se importa com a gente. Na sexta,. foi meu único programa de cinema. Chega, não? Ontem, comecei meu diaem Notre Dame e depois fui ver ‘Sur la Planche’, da marroquina Leila Kilane, que deixou toda a crítica daqui louca. ‘Cahiers’, ‘Positif’, ‘Transfuge’… Belo filme. Depois, com tantas novidades para ver, terminei revendo, por uma questão de horário e local, um Paalo Sorrentino que nem é o meu favorito do grande autor italiano, mas Sorrentino e Toni Servillo, como resistir a ‘Un Uomo in Più’? Na sequência, resolvi fazer um programa duplo sobre a elefantíase do sexo. ‘O Que É Que Há, Gatinha’, de Clive Donner, em cópia nova, que pretendia emendar com ‘Shame’, de Steve McQueen. Num certo sentido, ‘Pussy Cat’ é horrível como cinema, ou quase, mas poucos filmes expressam tanto as mudanças comportasmrentais dos anos 1960. E, também, só louco para não se divertir com Peter Sellers, Peter O’Toole e o jovem Woody Allen, mais aquelas mulheres lindas. Ursula Andress, Paula Prentiss (não me lembrava como ela foi bonita)… Saí do cinema correndo para ver o Michael Fassbender, mas o frio me venceu. Estava demais. Terminei entrando num restaurante para comer ( e tomar um vinhozinho, porque ninguém é de ferro). Deixei o ‘Shame’ para hoje. Deve ter nevado muito à noite. Estou olhando da janela do hotel. Tudo nevado lá fora. A rua, os carros… Comprei várias revistas de crítica, não só de cinema, mas ‘Cahiers’, que já havia avalizado ‘As Aventuras de Tintim’ – e eu tolo não entendia porque alguns coleguinhas haviam ‘gostado’ do filme -, dá sua capa de fevereiro a Steven Spielberg e, sim claro, eles gostaram de ‘O Cavalo da Guerra’ (mais do que de ‘O Cavalo de Turim’, de Bela Tárr, o suprassumo docinema de autor…). Dei-me ao trabalho de ler pelo menos um dos textos de ‘Cahiers’ sobre Spielberg. A revista concorda comigo que não é possível mais ignorar o diretor norte-americano, mas eles situam o tournant da carreiora de Spielberg em ‘A.I., Inteligência Artificial’, lembrando que foi Stanley Kubrick quem escolheu Steven para dirigir o projeto que era seu. O meu tournant foi em ‘O Terminal’, mas entendo perfeitamente porque ‘Cahiers’ considera ‘Guerra dos Mundos’ um dos filmes faróis da última década e peça essencial para entender/discutir o cinema d Hollyw0od pós-11 de Setembro. Ridículo! Lembrando a data, no Brasil ficaram só punhetando (desculpem…) em cima do Michael Moore, quando é óbvio que a trilogia informal de Steven – ‘O Terminal’, ‘Guerra dos Mundos’ e ‘Munique’ – é o básicopara se entender a década que mudou o mundo. Não me lembro quem entrou aqui no blog para chamar de infantilóide a relação do garoto com o cavalo (da guerra). Não é, meu amigo. Vai lá, vê de novo. Eu tenho tanta coisa para tentar ver hoje. Depois eu conto.