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Neobarrocos franceses

Luiz Carlos Merten

19 Março 2007 | 17h54

Foi uma coisa meio inconsciente, mas acho que lancei o post anterior só para chegar ao que vou escrever agora. Luc Besson pertence à geração dos chamados neobarrocos do cinema francês, que surgiu no começo dos anos 80. São diretores como Léos Carax, Jean-Jacques Beineix e ele. Todos com o pé na publicidade, desenvolveram uma estética pós-moderna à base de simulacros e referências que os críticos descartaram em bloco, mas só para voltar atrás. Cada caso é um caso. Beineix estreou com Diva, contando uma história (baseada em Delacorte) que mistura bel canto e a influência noir. Fez depois Betty Blue e Rosalyne e os Leões, que viraram obras de culto. Besson, apesar do rótulo, negou o barroco em sua estréia, com a ficção-científica Le Dernier Combat, mesmo que, depois, tenha feito de O Quinto Elemento uma das mais barrocas, entre as fantasias científicas do cinema. Pode-se detestar O Quinto Elemento – eu não gosto –, mas a cena da diva alienígena só pode ser uma brincadeira com Beineix e é brilhante. E há o caso de Carax. Me lembro de um texto do Walter Salles, que enconttrei no arquivo do Estado, com os maiores elogios a Mauvais Sang, o segundo longa do diretor, após Boy Meets Girl, que seria extremamente banal – um rapaz ama uma moça, sem sequer conhecê–la –, se não fosse tão anti-romântico. Carax fez em 1991 uma das obras mais caras e megalomaníacas do cinema francês – Os Amantes da Pont Neuf, para a qual reconstituiu, nos arredores de Paris, todo um arrondissement pariense, para abrigar a ponte (fake) do título. Nunca tive o menor entusiasmo por este filme, que sempre me pareceu um equívoco, mas aí assisti, em Cannes, a Pola X e tive um choque. O filme interpretado por Guillaume Dépardieu me perturbou muito e não apenas pela ousadia das cenas de sexo explícito com o filho de Gérard. Pois bem. Em Berlim, este ano, explicando porque escolheu Guillaume Dépardieu para fazer Ne Touchez Pas la Hache – na verdade, iam fazer outro filme que fracassou e aí o diretor tirou da manga o ás da adaptação de Balzac –, Jacques Rivette disse que considerava Guillaume um ator genial, desde que o viu num grande filme injustiçado. Vocês já sacaram que filme era este – Pola X. Se Rivette, tão rigoroso, e tão diferente de Carax, ama o diretor, me parece interessante tentar olhar o autor sem a lente do preconceito. Não digo que todos eles cresçam, mas acho que os neobarrocos franceses exigem revisão. Pode sair coisa intrigante, daí.