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Luiz Carlos Merten

13 Abril 2008 | 17h42

Não sou semiólogo nem nada, mas quero dizer que achei uma coisa de louco a foto de capa do ‘Estadão’ de ontem. Todos os jornais do Brasil devem ter estampado as fotos da libertação do pai e da madrasta de Isabella. Em sua argumentação, o juiz disse que não existem provas que justifiquem manter o casal na cadeia e a todos deve ser concedido o benefício da dúvida. Todos os jornais deram a foto convencional, menos ‘O Estado’. Não sei nem quem foi o autor, mas, pelamor de Deus, aquilo vai além da foto jornalística – é uma obra de arte. O pai e a madrasta no carro, dele aparecem somente os olhos, o restante do rosto está encoberto pelo vidro escuro, que foi baixado; ela estampa tudo na cara. Tudo, mas exatamente o quê? Angústia, perplexidade, talvez medo. Impressionante! Quero contar, e agora vou viajar um pouco, outra coisa que vi, agora no Centro de São Paulo, para onde voltei, ontem à tarde. Havia descido a Xavier de Toledo e vi a ação do rapa, todos aqueles ambulantes correndo para salvar seu negócio. Quando entrei na 24 de Maio, me chamou a atenção o que era obviamente uma família. A mãe e os dois filhos, todos marreteiros. Um garoto de seus 15 anos, outro de, sei lá, 10. E era uma gente muito bonita, a mãe e os filhos. Cheguei a pensar – vou dizer que o rapa está chegando, mas fiquei constrangido e passei. Havia dado uns passos quando alguém gritou, na extremidade da rua, que a polícia municipal estava chegando. Num segundo, o garoto mais velho puxou o plástico que virou um saco contendo os produtos que vendiam. Os garotos meio que levam na farra, mas o rosto da mãe… O medo, a apreensão. Ela sabe que está praticando uma atividade ilegal e portanto… Mas é uma mulher honesta, do bem, que talvez não tenha outra opção. Está tentando levar o que não deixa de ser o seu pequeno negócio. Perder tudo aquilo pode ser um prejuízo. Aqueles dois, três minutos poderiam muito bem estar num clássico do neo-realismo. O drama humano, a questão ética. Se não tivesse sido o meu olho, mas o de Vittorio De Sica, todo mundo ia chorar no cinema.

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