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Luiz Carlos Merten

09 Setembro 2008 | 09h29

Misteriosos são os labirintos da memória. Marcel Proust inicia seu caudaloso romance ‘Em Busca do Tempo Perdido’ com a associação que o Narrador faz da madeleine que agora saboreia com a de seu passado. Em ‘Hiroshima, Meu Amor’, é o mexer dos dedos do amante japonês, de bruços na cama, que desencadeia o fluxo da memória de Emmanuelle Riva e ela se lembra do amante alemão, morto em Nevers. Já disse para vocês, e se não disse estou postando agora, que se há uma frase – uma frase! – que para mim justifica o cinema é a de Emanuelle, no bar com Eiji Okada, quando ele lhe dá de beber e ela tem aquela explosão – ‘Ah que j’ai été jeune um jour à Nevers.’ Como eu fui jovem um dia em Nevers. Todos temos nossos Nevers e talvez eu esteja sensível ao tema do tempo porque nesta semana faço aniversário. O tempo passa, o tempo voa e eu estou chegando aos meus 63. Nessa de fazer associações, quero dizer que, no sábado, ao acordar, fiz uma que não consigo explicar. Não sei o que me trouxe aquilo de volta, mas já contei que minhas primeiras leituras foram os romances de Edgar Rice Burroughs, na antiga Coleção Terramarear. Li toda a série de Tarzan e sempre lamentei que Hollywood, tendo se apropriado do personagem, nunca tenha sido fiel à letra dos livros. Burroughs tinha uma imaginação delirante. Fez Tarzan viajar ao Centro da Terra, encontrar vestígios do Império Romano e de Camelot no interior da África. Sempre adorei a cidade perdida de Opar, onde, por uma corruptela genética, os homens eram primitivos como macacos e as mulheres eram deusas que atingiam a perfeição física, como a sacerdotiza La. E havia, na Cidade de Ouro, a rainha Nemone, com seu leão dourado. O leão era o símbolo do seu poder e, quando ele era morto, ao cabo de uma intriga palaciana, Nemone suicidava-se. A cena que me veio, e eu não sei explicar por quê – teria de fazer uma psicanálise rápida -, é a última do livro, quando Tarzan enterra Nemone e fica por alguns momentos, à luz da lua, em plena savana africana, prestando sua homenagem àquela mulher que amou tanto (e que o amou tanto). Às vezes penso em reler alguns livros de Edgar Rice Burroughs para ver se ele era bom mesmo ou se a minha lembrança é maior. Bem escritos seus livros deviam ser, pelo menos as traduções. Entre os que o traduziram no Brasil estava o poeta Manuel Bandeira, o homem de Pasárgada. Agora, vá lá saber – vou lá eu saber – porque me veio aquela cena do livro de Tarzan e eu estou com ela na cabeça, como certas músicas que nos perseguem.

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