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Nem Tróilo nem Créssida

Luiz Carlos Merten

24 Outubro 2016 | 15h36

Paulo Autran, um dos maiores atores da história do teatro brasileiro – o maior? -, considerava seu Júlio César um desastre, o pior Shakespeare montado no Brasil. Paulo já pode descansar em paz. Tem Shakespeare muito pior. Em plena Mostra, fui ver Tróilo e Créssida, a chanchada em que Jô Soares transformou uma das peças mais estranhas do bardo. Não sou nenhum especialista em Shakespeare. Não ouso analisar seus sonetos nem a essência do verso branco, que, segundo Otto Maria Carpeaux, Marlowe criou, instituindo o verso dramático do teatro inglês, e ao qual Shakespeare deu prosseguimento. Estava achando melhor deixar quieto o meu espanto pela peça. Passei o domingo envolvido com a Mostra, e no jornal. Não tinha nem tempo de pensar em Tróilo e Créssida. Quando penso, me arrepio. Tomo sempre Carpeaux como referência nas minhas digressões shakespearianas. Sei que a universidade não tem muito apreço por ele, e nem li o texto do Caderno 2 em que Carpeaux é acusado de plagiar Walter Benjamin. Na monumental História da Literatura Ocidental, são muitas as referências a Benjamin, quando Carpeaux discute o barroco do teatro inglês. Lá vou eu causar. Conheço Benjamin das traduções, e como escritor ele certamente não é páreo para Carpeaux, que se pode ler como literatura, e da grande, pelo prazer da escrita (e da leitura). Não conhecia Tróilo e Créssida, apenas a fama que a peça tem de ser ‘estranha’, com ‘seus heróis homéricos transformados em faladores imbecis e mulherengos ordinários, segundo a rubrica de Carpeaux. É ainda o grande Otto quem contextualiza a peça. O conceito barroco do mundo do teatro levou Shakespeare a uma concepção original da História, concebendo a tragédia histórica como tragicomédia. Antônio e Cleópatra, Coriolano etc. Na segunda, a vitória da plebe rude sobre o herói provoca no dramaturgo uma atitude que já foi chamada de reacionária. Shakespeare manifesta seu desgosto provocando com as comédias de dilemas morais, tipo Tróilo e Créssida, que Jô faz virar chanchada, mas ele, sorry, não é Carlos Manga. Nem Tróilo nem Créssida. A transformação de Aquiles em herói gay deve justificar, a seus olhos, o imbróglio da montagem. Todo mundo sai do armário, a viadagem impera no palco. Em princípio, é interessante, tudo isso ocorrer na Paulista, cena de tantos ataques homofóbicos, e na sede da austera Fiesp. Mas confesso que a vulgarização do verso shakespeariano – do verbo – me cansou. É ‘pau’ e ‘buceta’ prá lá e prá cá e ainda tem o zoiudo que define o criado de Aquiles como homem-puta. Isso não é grego nem shakespeariano. Rindo de que, ô…? Posso até estar sendo moralista, mas a falta de cultura me exaspera. No programa, um professor da FGV destaca a atualidade dos discursos da peça como expressão ‘da perplexidade angustiada que assola nosso tempo e as respostas que a ela têm dado as instituições e seus atores no Brasil’. É uma afirmação ambígua – ‘Fora, Temer’ ou ‘Fora, Dilma’? De minha parte terminei vendo tudo isso da contramão, porque no final, no sábado, apareceu o próprio Jô no palco agradecendo ao céus por lhe haver permitido reunir aquele elenco extraordinário para cometer, perdão, fazer sua montagem. Justamente, o elenco. É o ó. Alguns são ruins de nascença, outros estão ruins. Mas, no Brasil atual, em que a culpa não precisa ser provada para que o sujeito seja condenado, basta um ‘especialista’ qualquer – Jô? – elogiar o próprio elenco para que as pessoas saiam dali convencidas de que sim, são geniais. Ah, mas não são mesmo. E é nesse sentido, de expor a credulidade, que a montagem termina refletindo o País. Nem falei do figurino, com os modelitos gregos de militares que evocam Star Wars. Mas pesquisei e descobri que a peça é híbrida. Dentro da chanchada – e a Galisteu é engraçada, esvoaçando no palco como ‘o desejo’ -, Cassandra destoa ao entrar com registro trágico. Dublê de atriz e crítica de cinema, Tuna Dwek é quem faz o papel. Salva-se, e já é alguma coisa.