Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Nem orgulho nem paixão

Cultura

Luiz Carlos Merten

27 Fevereiro 2008 | 16h46

Régis tem toda razão. ‘Orgulho e Paixão’ é de lascar! Às vezes confesso que tenho umas crises e quero acreditar que o Stanley Kramer, com sua paixão pelos grandes temas (racismo em ‘Acorrentados’, perigo nuclear em ‘A Hora Final’ e nazismo em ‘Julgamento em Nuremberg’) não era tão ruim quanto parecia na época. Revi faz algum tempo o ‘Julgamento’ na TV e me impressionei com a beleza da fotografia em preto-e-branco e com a qualidade da interpretação (Spencer Tracy, Marlene Dietrich, Judy Garland, Montgomery Clift, Burt Lancaster). Tudo bem, a linguagem do filme é de primeiros planos, muito televisiva, mas eu estava revendo o ‘Julgamento’ na telinha. Tranqüilizem-se, minha recaída dura pouco e é só eu me lembrar de ‘Orgulho e Paixão’ e ‘O Segredo de Santa Vitória’ para concluir que o Kramer era, sim, muito ruim. A peruca do Sinatra, na verdade, foi o menor dos problemas de ‘Orgulho e Paixão’, com sua visão, como direi, sui generis?, das guerras napoleônicas na Espanha. ‘Orgulho e Paixão’ teve, segundo se conta, uma das filmagens mais tumultuadas de Hollywood na época (lá por 1957/58). Sinatra, não me perguntem por quê, exigiu que suas cenas fossem feitas antes e Sophia Loren confessou depois que se apaixonou por Cary Grant. Tudo isso devia ser muito mais interessante do que o que aparecia na tela e era preciso realmente um canhão daquele calibre para contrabalançar os seios de Sophia (que ainda não eram os Exocets atuais mas já ameaçavam alçar vôo). Outro filme horroroso do Kramer é ‘O Segredo de Santa Vitória’, sobre cidadezinha italiana que esconde a grande riqueza local, um milhão de garrafas de vinho, dos ocupantes nazistas. Entra em cena o Exército dos EUA. Numa cena, a filha, não me lembro mais se apaixonada por um soldado norte-americano ou por um garoto local, pergunta para a mãe o que é um homem. A mãe, Anna Magnani, pega uma cenoura e dois ovos, ou um pepino e duas batatas – era alguma coisa assim, bem ‘gastronômica’ -, e apresenta à garota. Sutil como uma patada de elefante!