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Luiz Carlos Merten

24 Janeiro 2011 | 10h37

TIRADENTES – Cá estou no meu quarto dia na Mostra de Tiradentes e não tenho informadeo muito – nada – vocês sobre o que está ocorrendo. A menina dos olhos da mostra é a seção Aurora, com curadoria de Cléber Eduardo, que começa hoje à noite e vai até sexta. Np sábado, ocorre a premiação. Na sexta passada, a mostra homenageou Paulo Cézar Saraceni e Irandhir Santos e exibiu a prté-estreia nacional de ‘O Gerente’, que Saraceni adaptou de Carlos Drummond de Andrade. Não gostei muito do filme – achei sua estética mais à retaguarda do que à vanguarda -, mas ele tem cenas magníficas. A recriação do poema ‘E agora José?’, um clipe de João Gilberto. No sábadoo e domingo, além dos primeiros debates, tivemos as mostras Olhares e Vertentes, que vexibiram filmes como ‘Avenida Brasília formosa’, de Gabriel Mascaro, e ‘Cortina de Fumaça’, de Rodrigo Mac Niven. Apesar de ser homônimo do filme de Wayne Wang com Paul Auster, esse ‘Cortina de Fumaça’ é um documentário engajado na causa da descriminalização das drogas. Nada mais contra a corrente dos discursdos que ouvimos ultimamente, até como justificativa para a invasão dos morros do Rio. Cientistas destroem falácias sobre a maconha como porta de entrada para drogas pesadas e o próprio Fernando Henrique Cardoso, que se apresenta como sociólogo e ex-presidente, advoga pela descriminalização e diz que as consequências disso vamos ter de ver depois. ‘Cortina de Fumaça’ fez a maior sensação e foi aplaudido de pé pelo público que, hgoras antes,. também aplaudira de pé “Tropa de Elite 2′, de José Padilha, na homenagem a Irandhir Santos. Por paradoxal que pareça, não é tão difícil de entender assim. O mdocumentário de Mac Niven tem uma pegada espetacular, à Errol Morris, e o filme de Padilha é cinema de tempos fortes. Ontem, tivemos mais um filme nesta pegada, ‘VIPs’, de Toniko Mello, que venceu o Festival do Rio. Gostei mais do que da primeira vez em que o vi e participo hoje da discussão, na mesa com o diretor. Cinema de mercado versus cinema de pesquisa, como é a tônica da mostra Aurora. Mesmo que seja incompleto – o próprio diretor definiu-o como ‘esboço de um filme’ -, gostei de ‘Avenida Brasília Formosa’, que se constroi nos limites do documentário e da ficção.  Sou aberto à experimentação, mas nunca me fecho ao ‘mercado’. Nem sou louco. Há mais ousadia e experimentação em filmes de grande espetáculo como os de Christopher Nolan e David Fincher do que em muito filme miúra. O mundo e o cinema mudaram muito, mas me lembro dos meus verdes anos, quando tentava harmonizar Don Weiss e Riccardo Freda com Michelangelo Antonioni, para desespero do (P.F.) Gastal, o crítico oficial da época, no Rio Grande do Sul. Gastal rezava pela cartilha de Buñuel, de Bergman. Eu ousava dizer que ‘Hajji Baba’ e ‘As Sete Espadas do Vingador’ eram tão bons e até melhores. Nunca consegui fazer essa divisão entre cinema de arte e comercial, entre experimentação e mercado. Seguir uma ou outra dessas tendências não garante a ninguém o céu nem o inferno. Há bons, grandes filmes (até como experimentação) de mercado e existem obras experimentais que não valem o celulóide ou digital que foi gasto.

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