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Ne Touchez Pas a Rivette

Luiz Carlos Merten

16 Fevereiro 2007 | 12h54

BERLIM – Estou devendo postagens desde ontem, mas nao sei por queh, houve um problema e todos os novos textos que eu tentava incluir no blog terminavam apagados. Fui pedir ajuda para um tecnico e ele disse que o problema devia ser meu, porque a maquina nunca erra. Brinquei com ele – perguntei se nunca tinha visto 2001, do Kubrick? Enfim, espero que agora funcione. Vi ontem o melhor filme deste festival e o que seria meu candidato ao Urso de Ouro. Ne Touchez Pas la Hache, de Jacques Rivette, Nao fazia a menor ideia do que se tratava e foi soh na hora que descobri que se trata de uma adaptacao de A Duquesa de Langeais, de Balzac, que jah originou um famoso filme frances dos anos 40. Devo dizer que Balzac e Stendhal sao meus escritores preferidos. Respeito outros, incluindo Eca de Queiros, Machado de Assis e Erico Verissimo, mas amor mesmo soh por esses dois. Rivette e Balzac parecem ter nascido um para o outro. A Bela Intrigante tambem era uma adaptacao de Balzac, mas era mais livre que a da Duqueza. A coletiva de Rivette foi deliciosa. Ele eh muito bem humorado. Disse que queria fazer um filme com Jeanne Balibar e Guillaume Depardieu, mas a producao foi suspensa na ultima hora. Sem querer decepcionar os atores, ele pensou, com a cumplicidade do roteirista Pascal Bonitzer, no que poderia criar, rapidamente. Rivette diz que foi aas fontes da literatura. Pensou em Henry James, mas o escritor nao quis cooperar. Foi entao que Balzac me providenciou essa excelente historia, disse ele. Uma historia de amor e teatro social. O general ama a duqueza, que eh coquete, brinca com seus sentimentos, mas nao cede. Ele se sente humilhado, decide vingar-se. A duqueza, ferida no amor proprio (e, a esta altura, apaixonada), foge e entra para um convento. Ele a persegue. Tenta sequestrah-la. Quem leu o livro conhece o desfecho, que Rivette respeita escrupulosamente. Por que o filme nao se chama A Duqueza de Langeais? Porque Ne Touchez Pas la Hache era o titulo original, quando Balzac publicou a historia em folhetins. Ele soh trocou o titulo quando estabeleceu o plano geral para a publicacao da Comedia Humana. Rivette diz que nao quis fazer a comedia humana, mas ele recria o teatro das convencoes sociais. Mantenha sempre as aparencias, diz a tia, interpretada por Bulle Ogier, aa duqueza. Esse verdadeiro teatro da falsidade social – nunca revele seus sentimentos – possibilita grandes interpretacoes a Jeanne e Guillaume. Houve um momento de mal-estar na coletiva. Um jornalista perguntou a Guillaume sobre seu pai, Gerard Depardieu. Ele disse que nao responderia. A produtora interveio, dizendo que as perguntas deveriam ser para Guillaume, sem nada a ver com Gerard. Rivette disse que escolheu Guillaume porque o viu em Pola X, de Leos Carax (que considera um filme tao grande quanto injusticado), e sabia do que ele seria capaz. Com Jeanne, jah havia trabalhado e sabia do que ela era capaz. Rivette filtra Balzac por Rohmer. Sua modernidade radical consiste em nao ter medo de nada, nem de parecer academico. Duvido muito que o juri vah atribuir o premio principal a Ne Touchez Pas, mas gostaria muito que Paul Schrader, Gael Garcia Bernal, Willem Dafoe e seus companheiros tivessem essa coragem, ou pelo menos dessem a Rivette um premio aa altura do que ele merece.