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Cultura » Nau mais antiga que o porto…

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Luiz Carlos Merten

29 Junho 2009 | 11h55

Havia visto ‘Transformers 2’ no sábado e, na saída do Shopping Borbon, fiquei preso sob a marquise, por conta daquela chuvarada. Fiquei ali deglutindo o filme de Michael Bay, pensando na humanização daqueles robôs – os autobots –, que tanto me encanta e até de forma irracional, sem que eu consiga verbalizar direito porque aquela máquina que chora mexe tanto comigo. Às vezes acho que eu próprio estou pirando, porque escrevo e falo da ‘expressão’ dos robôs. Mas é isso – os autobots têm expressão, um olhar que diz coisas e o que diz faz sentido, não é só pipoca, não. Mas será que só eu percebo isso? Por conta da chuva, tive dificuldade para pegar um táxi e terminei chegando molhado como pinto em casa. Mal me sequei e troquei de roupa, fui ver ‘Turismo Infinito’ no Sesc Pinheiros. Só eu para sair da parafernália de efeitos de Michael Bay para o rigor da palavra de Fernando Pessoa, cujos heterônimos o diretor português Ricardo Pais coloca em cena num espetáculo que alinhava o verbo do poeta com cartas de sua namorada Ofélia Queirós. Fiquei siderado pela concepção visual de Ricardo Pais, que entendi como um píer de onde sai a nau para a viagem interior do poeta, e também pela forma como seu ‘roteiro’ faz interagirem os heterônimos, por blocos, às vezes com o próprio Pessoa (Álvaro de Campos) ou então Alberto Caieiro, que tenta resolver os impasses entre o poeta e suas variantes. Adoro Pessoa, o que conheço dele, mas nunca fui especialista em suas variantes. O espetáculo não me esclareceu e a viagem muitas vezes me pareceu árdua, porque não é fácil para a gente, ou não foi fácil para mim entender o português de Portugal, por melhores que sejam os atores portugueses. Eles são muito, muito bons! A maneira como colocam/projetam a voz! Acho que poderia ficar mais uma hora a ouvi-los, ou tentar ouvir, por mais que a articulação daqueles temas me parecesse cifrada, quase impenetrável. Não creio que tenha conseguido ‘entender’, esse flagelo que tanto cobram do crítico. No teatro ou no cinema, a gente faz uma viagem interior. O entender é relativo. Tem gente que entende tudo e não desfruta nada. Eu saí do teatro querendo mais. Adorei os versos que Danilo Santos de Miranda, diretor do Sesc, escolheu para a apresentação. ‘E a sombra duma nau mais antiga que o porto que passa/ Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem/ E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro/ E passa para o outro lado da minha alma.’ Foi o que senti – o verbo de Pessoa entrando por mim dentro. É o tipo do espetáculo que acho que valeria (re)ver. Duas, três vezes. Mas é tarde. A nau de Dias e Pessoa já partiu…