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Luiz Carlos Merten

06 Agosto 2011 | 18h23

GRAMADO – Estou saindo da sala em que duas entidades, a Associação Brasileira de Críticos de Cinema e a Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul, promoveram o seminário ‘A Volta da Censura? O caso de Serbian Film’. Confesso que talvez tenha minimizado o episódio do filme sérvio e nem vi a capa da ‘Ilustrada’, que, segundo um dos participantes do debate (no plenário), consegue ser mais tendenciosa e mal-intencionada que o filme. Não participei. Fiquei de boca calada, ouvindo, mas querendo me manifestar a toda hora. Me assusta muito como, em debates do tipo, as pessoas – não todas, é verdade – levantam questões de ordem que vão justamente na contramão daquilo que elas parecem estar defendendo. Um queria a intervenção do Ministério Público (a censura?) por isso, outro por aquilo, em casos envolvendo a televisão. Sou do tipo que acha que a classificação por idade é válida mas a censura, na TV, quem deve fazer é o espectador. Mudando de canal ou desligando o aparelho, e se o telespectador adora as piadas de Faustão sobre as bimbadas que os maridos não estão dando em suas senhoras, bem, é a tradicional família brasileira que assiste ao programa e eu não vou ficar tutelando a falta de gosto de ninguém. Eu fora, mas não vejo esses programas de auditório, nem BBB, nem morto. E me desculpem se vou ser grosseiro, mas se é para ver o Peter Lorre, prefiro o original, e não esse em que Faustão se transformou. Sou de um tempo, insisto, em que a censura deitava e rolava e debates do tipo não se realizavam porque a censura também estava atenta contra eles. O representante do MP, Davi não sei das quantas, sorry, deixou claro que há uma diferença clara entre os critérios de classificação por idade, vigentes hoje no Brasil, e a censura do regime militar, que muitas vezes, senão sempre, dependia das idiossincrasias de cada censor. Isso não impede que deputados do DEM, o famigerado partido do famigerado Kassab – como um político incompetente e impopular consegue tanto poder, esse é o seminário que gostaria de ver -, tenham pedido a interdição de ‘Serbian Film’ com base no estatuto da criança, invocando a alegada pedofilia do filme. Davi nos disse que a resolução do MP ainda não saiu no ‘Diário Oficial’, o que vai ocorrer segunda, mas o filme foi liberado com impropriedade até 18 anos. Isso não vai impedir que políticos, juízes ou representantes de associações venham a contestar a decisão, pedindo a proibição de ‘Serbian Film’, mas, na eventualidade de isso ocorrer, sempre vão existir instrumentos legais para se recorrer da decisão e não camburões – ou carros de jornais conviventes com a ditadura, remember ‘Citizen Boilesen’ – para levar a gente para o pau de arara. Dito isso, parece que sou contra o debate realizado hoje. Não sou, não. Achei muito instrutivo, principalmente pelo que se podia ler nas entrelinhas. Um prato cheio para aquele senhor, o tal Freud. O dono da Lume, a distribuidora de ‘Serbian Film’ (e de DVDs), espinafrou a mediocridade do cinema brasileiro atual, que não favorece o cinema autoral, mas entre 1001 filmes de autores, inclusive do Brasil, para comprar e lançar escolheu um que todo mundo que viu disse que não merece uma linha da projeção que ganhou. Só que a mídia que ‘Serbian Film’ ganhou, aparentemente sem merecer,  também beneficiou a Lume.  Foi tudo muito esquisito, mas, enfim, ‘Serbian Film’ vendeu a Lume e a Associação Brasileira de Críticos de Cinema, Abracine, de cuja existência nem sabia, pois foi criada em Paulínia e lá não estive. Talvez, já que o filme está liberado, o ideal tivesse sido mostrá-lo, mas, como isso não ocorreu, do que ouvi, o mais interessante veio mesmo do representante do Ministério Público. A Censura (não) voltou?

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