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Luiz Carlos Merten

28 Abril 2007 | 11h51

RECIFE – Achei não apenas deselegante mas injusto o comentário do leitor sobre Renee Zellweger. Quando falei na ponte entre Miss Potter e Babe não é porque Rene tem cara de porco. Também não sei o que o Franz quis dizer quando, comentando o post sobre Beijo de Sal, diz que eu fui muito parcial. Mas eu sou parcial! Espero estar sempre emitindo minha opinião sobre as coisas, mesmo nas entrevistas, quando estou dando voz ao interlocutor. Não creio que, por ser jornalista, tenha de ser imparcial. Nas notícias, até que sim, mas, como trabalho quase sempre com opinião, a que vale, para mim, é a minha, o que envolve um risco. O leitor pode não concordar e ir adiante. Vocês me conhecem. Sabem que eu acho que o filme a gente reinventa. O diretor faz a parte dele. A gente completa. Como cada cabeça faz uma sentença, há tempos desisti da unanimidade. Existem coisas que acho irremediavelmente ruins, mas o importante, creio, é não ficar no ‘achismo’, no gostei/não gostei. Uma crítica precisa de fundamentação e justificativa, se a alcançamos é outra história. Sinceramente, nem sei se existe isso – uma crítica imparcial. Mas, enfim, quero voltar ao Festival do Recife. Realizei hoje de manhã o sonho de muita gente, incluindo gente que conheço, ao tomar café com Rodrigo Santoro. Foi numa suíte do Hotel Recife Palace, para que pudéssemos estar à vontade. No salão do hotel teria sido impossível. Venho há vários anos ao Recife e nunca vi nada parecido com a comoção que o Rodrigo provocou na platéia, ontem, durante a sessão de Não por Acaso. Para mim, pelo menos, foi como fechar um ciclo. Hás seis, sete anos, vi o Rodrigo ser vaiado em Brasília, na noite da apresentação do Bicho de Sete Cabeças. Rodrigo chegou, era o galã da Globo, a platéia politizada de Brasília vaiou, querendo, por meio dele, atingir a Globo. No final da sessão, eu estava lá e vi, Rodrigo virou a platéia. Teve marmanjo que foi chorandoi lhe pedir desculpa pela vaia. Nasceu, ali, um belo (grande?) ator de cinema. Ontem, os aplausos não eram para o Rodrigo galã, mas para o ator. Gostei demais do filme do Philipe Barcinski, que terminou sendo, como eu sonhava, uma experiência visceral. Muita gente reclamou do excesso de música, mas eu acho que ela é uma das protagonistas da história desses dois solitários obsessivos, que tentam controlar a vida, como controlam seu ofícios, mas a vida vem. Um homem que perdeu a mulher, um pai que se reaproxima da filha. Até por ser pai, fiquei muito tocado com a experiência do personagem de Leonardo Medeiros, ator a quem admiro – muito, finalmente posso escrever isso -, mas o problema eram os filmes. Não sou o maior dos fãs de Lavoura Arcaica nem de Cabra Cega, embora respeite Luiz Fernando Carvalho (mais pelo que faz na TV) e Toni Venturi (Latitude Zero é um filme que mexe comigo). Em Não por Acaso, Leo é maravilhoso. É um filme cerebral, muito construído, ou melhor, é um filme muito construído, mas que escapa do cerebralismo, um pouco pela música e outro tanto, muito mais, pelas interpretações. O tema é o conflito entre o racional e o emocional, com imagens incríveis do tráfego de São Paulo. Aliás, Philipe Barcinski já se inscreve, com o Person de São Paulo S.A. e alguns outros (Khouri, Sganzerla) entre os diretores que melhor filmaram a cidade. Rodrigo é f… Pedro, o personagem dele, é de uma meticulosidade extrema. Manifesta-se por meio de gestos muito precisos – na sinuca, no ato de construir aquelas mesas de jogo -, antes de desabar, emocionalmente, numa cena muito intensa de rua. Mas não é um filme para baixo. Ambos os personagens estão querendo renascer, ampliar seus espaços. Repito que gostei bastante de Não por Acaso, nem discuto se tem defeitos, ou não. Tanto faz. O que vale é a intensidade. Hoje à noite quero rever Cão sem Dono, de Beto Brant, que representa um passo gigantesco do diretor depois de Crime Delicado (do qual não gosto e é impressionante como um monte de gente, que não se manifesta publicamente, me diz que também não gosta. Um dia vou fazer a lista…) O júri não vai ter como fugir. A premiação vai se definir entre os dois. Minha curiosidade é saber se teremos concentração de prêmios ou se haverá uma distribuição. Conhecendo o valor que certas figuras do júri atribuem ao silêncio, temo pelo filme de ontem. Vamos lá! Recife está terminando mais uma edição de seu festival, que ontem teve um momento apoteótico. Mais de 3 mil pessoas, gente de pé, sentada nas galerias. E, no final, aquele aplauso! A platéia, aqui, aplaude tudo (até o que não devia). O que conta são os decibéis. E ontem os decibéis arrebentaram.