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Não há fogo sob as cinzas

Luiz Carlos Merten

27 Outubro 2006 | 14h23

Não há muito, em princípio, que aproxime um filme chinês como A Promessa, hoje às 15h30 no Arteplex 2, de um brasileiro como O Dono do Mar, às 16 horas, no Unibanco 1. Ambos estão mais próximos do que você imagina. Tratam de lendas, seres fantásticos, desenrolam-se em belas paisagens e são filmados naquele estilo que os franceses chamam de ‘pompier’. Traduzida literalmente, a palavra quer dizer bombeiro. No sentido figurado, representa o academicismo pomposo que apaga o fogo da paixão. Chen Kaige ganhou a Palma de Ouro por um filme supervalorizado – Adeus, Minha Concubina –, mas que oferecia o interesse de exorcizar um fantasma da juventude dele. Por meio do triângulo amoroso impossível segundo a cartilha do camarada Mao (dois homens e uma mulher ou duas mulheres e um homem, já que um deles é um travesti da Ópera de Pequim), Kaige falava do crime que cometeu contra o próprio pai, assistindo e até participando da humilhação pública a que ele foi submetido durante a Revolução Cultural. Agora Kaige conta a história mítica desta garota órfã e pobre que faz uma promessa para ficar bela e poderosa e descobre que armou uma cilada para si mesma. A busca de um absoluto também move o pescador de O Dono do Mar, que vive com duas mulheres (sem esquecer uma terceira) e tenta vingar o filho. O diretor Mendes era Odorico quando fez Sigilo Absoluto e se assina agora Odoryco. Com seu filme anterior, de 1993, ele visou a um tipo de produto internacional, trazendo para o País atores de língua inglesa como Jennifer O’Neill e Michael York, mas a banalidade da narrativa policial o levou a assinar um telefilme de padrão médio, ou seja medíocre. A ambição é maior em O Dono do Mar, que bebe na fonte do romance do ex-presidente José Sarney, que, nos anos 60, quando ainda governava o Maranhão, encomendou um filme a Glauber Rocha (Maranhão 66). Odoryco Mendes citou Glauber na primeira noite de apresentação de O Dono do Mar na Mostra. Havia pouca gente na sala, mas lá fora o tumulto havia sido grande porque Dado Dolabella acompanhou sua mãe, Pepita Rodrigues, que é atriz do filme, e foi impressionante constatar a atração que ele exerce sobre o público de todas as idades, de crianças a idosos. Odoryco lembrou Glauber – um filme a gente vê, não fica conversando sobre ele. Não sei se Glauber alguma vez disse isso, pois se havia alguém que gostava de polemizar sobre filmes (e autores) era ele. Mas, enfim, não há nada menos glauberiano do que a cosmética da fome que anima O Dono do Mar, com aquele céu carregado e os pretensiosos efeitos especiais de navios fantasmas que tentam criar um clima mágico. Imagino que seja desagradável para Odoryco ouvir uma coisa dessas, mas também foi para mim ver um filme que, no limite, a despeito do esforço de produção e do empenho visual e cênico, me pareceu bastante equivocado. Não sou dono da verdade e até espero que, ao contrário de mim, você embarque nesta viagem, ou viagens, a de A Promessa e O Dono do Mar, embora duvide, sinceramente.