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‘Não existem pessoas ilegítimas’

Luiz Carlos Merten

05 Março 2018 | 09h08

Cá estou eu, no pós-Oscar. Ando numa fase de muito estreesse, mas, por mais que o blog seja meu diário, não cabe ficar devassando intimidades. Fiquei até 2h30 no jornal, cheguei às 3 em casa. Custei a dormir – iniciei nova Agatha – e acordei às 7. O dia ontem foi punk. Tive de enterrar Tônia Carrero no C2. A ‘nossa’ Ingrid Bergman. Pedro Antunes gostou de uma frase minha no obituário e chamou como título no online. ‘Se tivesse nascido na Suécia, Tônia teria sido chamada para Hollywood.’ Teria feito uma grande carreira internacional. E depois da TV, dos filmes da TV e de alguma materinha mais, o Oscar! Num certo sentido, foi o Oscar da mesmice. As quatro estatuetas de interpretação não fugiram ao figurino dos indicadores. Sam Rockwell, Allison Janney, Gary Oldman, Frances McDormand. Todos bons, claro, mas eu, pessoalmente, não teria dado para nenhum. Repetiram os discursos do Globo de Ouro, com uma subida de tom. Afinal, é o Oscar. Frances, dessa vez, não estava bêbada, mas o descontrole foi maior. Seu discurso de aceitação do prêmio já entrou para os anais. Nenhuma surpresa na vitória de Guiollermo del Toro como melhor diretor, por A Forma da Água – a surpresa foi o filme ter vencido na categoria principal. Em cinco anos, quatro diretores mexicanos ganharam o Oscar, três, na verdade, pois Alejandro González-Iñárritu repetiu-o. O muro que Trump quer construir não tem valido em Hollywood. Sendo os prêmios principais tão previsíveis – menos o de melhor filme, em termos -, foi preciso procurar a emoção da cerimônia em outras partes, e eu a encontrei. Jimmy Kimmel abriu a festa fazendo piada com a estatueta. É o homem que as mulheres, a indústria toda querem. Com as mãos onde se pode ver, e sem pênis. Valeu a piada, mas será mesmo esse o cara? Porque a piada tem algo de cruel, perverso. Sem pênis? Pergunto-me se voltaremos a um tempo em que os homens poderão voltar a expressar seu interesse por uma mulher – e vice-versa -, sem que isso seja, necessariamente, ofensivo nem manifestação de poder? Como funcionam as novas regras? Olhar pode, tocar, não, ofender, nunca. Na quinta, estreia Os Farofeiros e duas das melhores piadas do novo Roberto Santucci, por incorretas que sejam – e são -, encaram o tema das expectativas sexuais. Os homens veem chegar, em câmera lenta, a ‘gostosa’. Oi, Ellen! E as mulheres veem, no mesmo movimento, o bofão. Oi, Adonis! Os melhores momentos desse Oscar, para mim, retornaram às questões do gênero, da raça. Jordan Peele ganhando seu Oscar de roteiro, por Corra!. James Ivory ganhando o dele, também de roteiro – adaptado -, por Me Chame pelo seu Nome – Ivory estampou a cara de Timothy Chalamet na camisa e lembrou o companheiro de uma vida, o produtor Ismail Merchant. O Oscar LGBT. O Oscar das mulheres. #ME TOO, Time’s Up. Numa participação gravada, Geena Davis, melhor atriz por Turista Acidental, lembrou Thelma e Louise. ‘Em 1991, pensávamos – as mulheres, disse ela – que o filme abriria uma nova via em Hollywood. Hoje é que estão sendo colhidos aqueles frutos…’ O Oscar festeja 90 anos, um belo clipe. O Oscar celebra a latinidade, e não apenas através de Del Toro. O México reaparece com Viva – a Vida É Uma Festa. O Chile entra para o panteão do filme estrangeriro, com Uma Mulher Fantástica, entronizado pela portorriquenha Rita Moreno, que venceu como coadjuvante por West Side Story/Amor, Sublime Amor. Daniela Vega chegou lá. Como disse o diretor Sebastian Lelio nos bastidores – Ubiratan Brasil reportou no C2 -, seu filme faz avançar uma discussão importante. A saber – ‘Não existem pessoas ilegítimas’.