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Cultura » Não creio? Emilio Salgari!

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Luiz Carlos Merten

01 Junho 2009 | 11h08

Acho que existem sebos do Centro em que já sou manjado. Vivo garimpando velhos exemplares da Coleção Terramarear, mas os próprios donos me desanimam. Dizem que quem tem não se desfaz daquelas preciosidades, por nada deste mundo. As aventuras da Coleção Terramarear forneceram a leitura da minha infância e pré-adolescência. Até hoje busco os livros de Edgar Rice Burroughs, mas é para ter aqueles volumes de Tarzan. Não sei nem se me arriscaria a (re)ler. Talvez a busca do tempo perdido seja só uma fantasia e o medo do tempo reencontrado seja a realidade. E se os livros que me encantavam quando garoto agora me decepcionarem? Talvez um dia eu encare o desafio – se encontrar os livros em questão. A gente só se arrepende daquilo que quer e não faz, não é? Sei que não sou único. Ledo Ido chegiou a escrever um livro, ‘A Ética da Aventura’, que buscava seu título nas experiências do menino que ele havia sido, fascinado pelas narrativas de aventuras. Agrada-me esse conceito, a ética da aventura. No fundo, é o que busco num cinema de tempos fortes, que nunca deixa de me encantar. Mas quero falar é de livros, de literatura. Tive de ir a Osasco na sexta-feira à tarde. Peguei a edição do ‘Cultura’, de ontem, que já havia rodado. Fui lendo pelo caminho, o que é raro. Luiz Zanin Oricchio entrevista Walter Salles, sobre o documentário da beat generation que prepara o caminho para o sonhado ‘On the Road’, do diretor; Daniel Piza bate (de leve) em ‘Budapeste’, assinalando, o que concordo, que o filme de Walter Carvalho adaptado de Chico Buarque ‘não pega’; Antônio Gonçalves Filho discute com o espanhol Vila-Matas a pesquisa de seu livro ‘Suicídios Exemplares’, em que a busca da morte é atalho para que o autor celebre a vida etc. um monte de matérias bacanas, mas eu confesso que o que me ‘apanhou’ foi uma nota de lançamento. Hein, como? A ‘Iluminuras’ está lançando ‘Os Mistérios da Selva Negra’? Aleluia! Emilio Salgari é outro cujos livros persigo em sebos e agora temos um lançamento zero bala do escritor? Corri à Livraria Cultura no sábado, mas perdi mais de meia hora antes de conseguir localizar o livro. Estava catalogado como ‘infantil’, mas a garota que gentilmente me atendeu não conseguia localizá-lo. Finalmente, ela me informou que, ‘erroneamente’, o volume estava na seção de ‘literatura’, outro departamento. Esclarecido o equívoco, comprei ‘Os Mistérios’ e já comecei a ler a saga do caçador de serpentes Tremal-naik, que se apaixona pela jovem Ada, mas ela é considerada uma virgem sagrada pelos tugues e vive confinada pelos adoradores da deusa da morte, Káli. Posso ser o que meus colegas mais intelectuais chamam de faísca atrasada, mas Emilio Salgari, o Júlio Verne italiano, foi uma das leituras preferidas da minha juventude. Fui ao arquivo do ‘Estado’, em busca da pasta do autor que se suicidou em Turim, no início do século passado, e os últimos impressos que encontrei em sua pasta datam de 1991, textos assinados por Sérgio Augusto e por Eduardo Bueno, o Peninha. Estou em boa companhia. É curioso que Sérgio Augusto prefira, à aproximação com Júlio Verne, outra com Rafael Sabatini, autor de ‘Capitão Blood’ e ‘Scaramouche’. Salgari seria o ‘Sabatini do Saara’. Na maioria das vezes, ele foi confinado ao segundo time dos grandes escritores de aventuras, mas seus heróis Sandokan, o Leão de Damasco, Tremal-naik e o Capitão Tormenta (Tempesta, em italiano) não apenas professam a ética da aventura a que se refere Ledo Ivo, como, em geral, são mais afinados com a libido – vamos logo aos fatos, mais tesudos – do que outros aventureiros anglo-saxões que, por puritanismo, não ligam muito para essas coisas do baixo ventre. Estou feliz como uma criança. Espero que o dia me corra leve e volte cedo para casa, para me entregar à magia de Tremal-naik e seu tigre domesticado, Darma, uma espécie de sucedâneo de Jad-bal-ja, o leão dourado de Tarzan.