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Luiz Carlos Merten

08 Novembro 2010 | 11h09

Acho muito curiosa a forma como a gente se apropria, como eu me aproprio, dos filmes que vejo. Havia visto ‘As Quatro Voltas’ em DVD. Mesmo sabendo que o filme será lançado nos cinemas pela distribuidora da Mostra, não resisti e fui vê-lo na repescagem, sábado, no Cine Livraria Cultura. Encontrei um monte de gente que me disse que lá estava por causa de minha indicação – no blog e no jornal. O filme começa com o velho que tosse. Não existe aproximação mais improvável, mas, como na primeira vez que vi o filme de Michelangelo Frammartino, me lembrei… Sabem de quem, ou de quê? De ‘Hiroshima, meu Amor’. Logo no começo do clássico de Alain Resnais, roteiro de Marguerite Duras, Eiji Okada cita todas aquelas estatísticas para Emmanuelle Riva. Resnais havia sido contratado para fazer um filme sobre a bomba. Ele matou a charada no começo. Depois, começa o filme, propriamente dito. Emmanuelle e Okada fazem sexo, conversam. De repente, ela para e diz –’Regarde, tous les soirs il passe à la même heure’. Todas as noites ele passa na mesma hora. O homem que tosse. Não o vemos, mas sempre achei que fosse um velho. Um personagem totalmente secundário, mas há quase 50 anos, desde que vi o filme pela primeira vez, ele me assombra. Sempre quis construir, no meu imaginário, uma história para aquele velho. Lembrei-me dele vendo ‘As Quatro Voltas’, mas um japonês que sobreviveu à explosão atômica tem de ser, necessariamente, muito diferente de um pastor de cabras da Calábria. O filme de Frammartino começa com o velho que tosse. Hollywood, o cinemão, acreditam que o cinema deva ser, é, uma arte narrativa. Não ocorre muita coisa em ‘As Quatro Voltas’, mas seguimos o velho numa série de ações. Ele leva suas cabras para o pasto, volta com elas para casa, tira o leite (‘ordenha’), vai à igreja pegar o pó que dissolve na água, antes de dormir, e é a sua medicina contra a tosse. O velho morre e a ‘história’ prossegue com o cabritinho que ensaia seus primeiros passos. Nada ocorre em ‘As Quatro Voltas’. O único real incidente do filme é provocado pelo cachorro – ele se chama Vuk, informam os créditos finais –, quando retira a pedra que trava a roda e o caminhão desgovernado derruba a cerca e solta as cabras. Nada ocorre? Nada? Dessa sucessão de cenas que parecem um tanto aleatórias, mas revelam uma sábia utilização do espaço, e do tempo, emerge uma concepção do cinema, da vida – ‘tudo’. Só a maneira como Frammartino filma a procissão do calvário já é coisa de se tirar o chapéu. Chegam os centuriões, o grupo movimenta-se lá ao fundo. É uma vida até que eles passem pela câmera e aí vem a retardatária que Vuk encurrala, não quer deixar passar. A Mostra exibiu muitos bons filmes, mas não creio que a ‘crítica’, à qual não deixo de pertencer, tenha feito uma boa escolha. ‘Mistérios de Lisboa’ não foi o melhor filme da 34ª Mostra nem é o melhor de Raúl Ruiz. ‘Carlos’ poderia ser, mas, por mais que admire o filme de Olivier Assayas, há uma queda, acho que até inevitável, na parte final, após o ápice representado pelo sequestro na Opep e a tentativa de pouso do avião. Mesmo se mantivesse o mesmo nível e não tivesse essa quebra, não creio que ‘Carlos’ fosse o farol da estrada, ou dessa Mostra. Poderia ser ‘Poetry’, do coreano Lee Chang-dong, mas tenho, para mim, que o russo Loznitsa (‘Minha Felicidade) e o italiano Frammartino estão mais próximos do que deva ser um filme abridor de caminhos, revelador de tendências, deem o nome que quiserem, como deve ser, acho, o prêmio da crítica. O prêmio da crítica não precisa nem ir para o melhor filme, mas para o que tem coragem de ousar, o que nos confronta com o que nos desafia ou não queremos ver (‘aquela’ Ucrânia). Às vezes, ser voto vencido me tranquiliza. Com alguma presunção, reconheço, me faz sentir que estou ‘à frente’.

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