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Nada a perder, tudo a ganhar (com Visconti)

Luiz Carlos Merten

30 Março 2018 | 12h55

Tive ontem um dia bem agitado, com filme atrás de filme. Comecei com o documentário sobre A Batalha de Argel que estará no É Tudo Verdade, passei pela redação do Estado e emendei com outros dois filmes. Havia comprado ingresso para a sessão das 6 de Nada a Perder no PlayArte Marabá. Parece que vai se repetir a fraude de Os Dez Mandamentos. O maior sucesso de bilheteria do cinema brasileiro não é o maior sucesso de público. O filme da novela da Record – bem editado pelo diretor Alexandre Avancini, ou vocês acham fácil condensar uma trama daquelas em cerca de duas horas? – ultrapassou Tropa de Elite 2 ao vender mais de 11 milhões de ingressos, mas o público não estava nos cinemas. Eu mesmo fui a várias salas que, teoricamente, deveriam estar cheias – sessões esgotadas -, mas não tinham ninguém. Nada a Perder, a cinebiografia do bispo Edir Macedo estreou com mais de 4 milhões de ingressos vendidos. Onde está o povo? Éramos 11 míseras pessoas na sessão do Marabá, e quando saí não havia nenhum ajuntamento para a sessão seguinte. No final do filme, o próprio bispo Edir Macedo intervém para uma oração e fala num tal lencinho que não recebi ao comprar o ingresso. Nunca vi isso. O público sendo convidado a parar e orar dentro do cinema. Um letreiro informa – Nada a Perder continua. Vem aí o 2. O título parece ser o mantra do bispo Macedo. Em vários momentos de sua vida ele peitou a adversidade porque não tinha nada a perder. Convida os pobres e miseráveis a fazerem o mesmo. Eu, cá comigo, fiquei em dúvida se o filme é mesmo sobre Edir Macedo ou se será sobre Lula. Explico. Começa com a prisão do bispo. Seus inimigos, incluindo um juiz que conspira com os ricos e poderosos, querem fazer da prisão um espetáculo para destruí-lo. Não conseguem. A acusação é de corrupção, charlatanismo. O bispo, na ficção, mantém-se sereno. A Bíblia é seu alimento na cadeia. De cara, quando ele chega à polícia – todo mundo usa coletes com a inscrição Polícia Civil – para prestar depoimento, diz ‘minha filha’ para a funcionária, que reage abruptamente. Teve um episódio assim com o ex-presidente, não? Chamou uma funcionária da PF de querida, não? Não há um policial, juiz, ministro, político, prelado, empresário de comunicação – exceto Sílvio Santos – que não seja arrogante nem ultrapasse os limites de suas atribuições para afrontar, humilhar o bispo no filme. O curioso é que a obra, que pode ser considerada uma fraude – ingressos comprados, etc -, é sobre outra fraude, um julgamento forjado. Confesso que fiquei meio perplexo. Não sabia da deformidade nas mãos do bispo, o que o torna próximo de mim, de certa forma, mas creio que ela não é tão bem representada na tela quanto a do maestro João Carlos Martins, no filme de Mauro Lima. Quero acrescentar, porém, e talvez seja crucificado por isso – afinal, é Sexta-Feira Santa – que gostei de Petrônio Gontijo e Day Mesquita, que fazem o bispo e sua mulher, Ester. É uma pena que Alexandre Avancini não esteja dando entrevista, me informou a Cris Rio Branco, assessora do filme. Haveria o que lhe perguntar, com certeza. Como disse acima que havia emendado dois filmes, depois de Nada a Perder fui (re)ver Rocco e Seus Irmãos. O filme da minha vida. Também não éramos tantos – meia sala, talvez menos, o menor público que vi em filmes da retrospectiva de Luchino Visconti. Saí da sessão meio desarvorado. Passava da meia-noite, liguei para meu amigo Dib Carneiro, que está em Curitiba, no festival de teatro. Queria falar sobre o diálogo de Rocco. Dib é dramaturgo, e grande. Entende de diálogo como poucos. Fui dormir pensando em Suso Cecchi D’Amico, a grande roteirista de Visconti, de quem me tornei amigo, após conhecê-la no Festival de Veneza. Suso me deu seu telefone de casa, em Roma. Várias vezes lhe liguei para conversarmos, sobre algum Visconti que havia (re)visto. Suso morreu em 31 de julho de 2010. Seu diálogo segue vivo. O encontro de Rocco e Nadia, quando ela sai da cadeia e ele está abandonando o Exército; a fala de Rocco, no jantar da celebração de sua vitória; e a fala compassiva de Ciro para Luca, no desfecho. Gostaria que a signora estivesse viva para lhe fazer sentir como seu filme é, e será sempre, importante para mim. Posso ser nada no universo. Rocco é tudo.