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Luiz Carlos Merten

27 Novembro 2007 | 16h33

Recebi mais três DVDs da Versátil, dois de filmes brasileiros – ‘O Bandido da Luz Vermelha’, de Rogério Sganzerla; e ‘Anchieta, José do Brasil’, de Paulo César Saraceni – e o terceiro, o italiano ‘Os Girassóis da Rússia’, de Vittorio De Sica. O que mais se pode dizer sobre ‘O Bandido’, um dos filmes mais cultuados e dissecados da história do cinema brasileiro? Há exatamente 40 anos – a produção é de 1967 –, ‘O Bandido’ iniciava uma revolução no cinema brasileiro, abrindo um ciclo e criando um gênero, aquilo que ficou conhecido como cinema marginal ou undreground, que no caso de Sganzerla, abrasileirado, é udigrudi. Tenho de admitir que mantenho uma relação ambígua com ‘O Bandido’. O filme é uma explosão de ousadia e criatividade, mas eu confesso que essa maneira avacalhada de filmar – e que é uma frase do personagem – nunca me pareceu mais ‘brasileira’ do que os dois policiais clássicos de Roberto Farias que antecederam ‘O Bandido’ – ‘Cidade Ameaçada’ e ‘Assalto ao Trem Pagador’. Nenhum dos dois diretores pertencia aos quadros do Cinema Novo e o movimento udigrudi, inclusive, se fazia contra a matriz de Glauber & Cia. Neste momento, acho interessante lembrar o que disse, na época, o lendário ‘Presidente’ da Cinemateca Brasileira, Francisco Luiz de Almeida Salles. Ele considerava ‘O Bandido’ uma ópera-bufa sobre São Paulo e a cidade é, de fato, uma personagem tão viva quanto o bandido que agia na noite, seduzindo e estuprando mulheres. É curioso, mas essa visão da metrópole, ligada à Boca do Lixo, dava prosseguimento a ‘São Paulo S.A.’, de Luiz Sérgio Person, e antecipava todos esses filmes que, atualmente, estão dando outra visão da grandeza e da miséria de Sampa – ‘Não por Acaso’, ‘A Via Láctea’ e ‘O Sonho da Cidade’. Não foi só a cidade que mudou. O cinema brasileiro, também, e mesmo gostando, com gradações diversas, desses filmes, não sei posso dizer que mudou para melhor. Narrado como uma partida de futebol e, ao mesmo tempo, frio e distanciado, ‘O Bandido’ encontrou em Paulo Villaça o ator perfeito para o papel. Comparativamente, sinto que preciso rever ‘Anchieta’ antes de falar do filme de Saraceni que, na época – fim dos anos 70 –, foi representante do cinema brasileiro em Veneza. Confesso, mais uma confissão, que tenho mais curiosidade do que admiração pelo projeto autoral de Saraceni. Sua obra me passa, toda ela, a impressão de incompleta, rascunhada e, isso, apesar de sua parceria com o grande fotógrafo Mário Carneiro. Existem coisas boas em ‘Porto das Caixas’, mas a montagem do assassinato (uma coisa técnica, mesmo 0 não me convence; ‘O Desafio’ passa a impotência da intelectualidade diante da ditadura – acho muito legal a cena em que Oduvaldo Vianna Filho leva Isabella até aquela casa em ruínas, que representa sua falta de projeto –, mas ‘Capitu’, pbre Machado de Assis, e ‘O Viajante’ me constrangem Tenho a impressão de que só gosto mesmo, com todos os defeitos que possa ter, de ‘A Casa Assassinada’, mas ali a base era Lúcio Cardoso – trucidado no ‘Viajante’ – e o filme ainda tinha Norma Bengell e Carlos Kroeber em estado de graça. A cena em que ele, vestido de mulher, irrompe no velório, é uma das coisas mais fortes (e loucas) do cinema nacional. Sempre me desconcertou muito a mistura de gêneros no cinema de Saraceni, e a de ‘Anchieta’ em particular – reportagem etnográfica, alegoria, teatro da crueldade, abre-alas de carnaval e debate ideológico, tudo se une (e também desconstrói), mas nunca esqueci a cara de Nei Latorraca quando Saraceni tenta passar para a gente a dor do apóstolo do Brasil face à ruína dos índios, pelos quais tanto lutou. Vou rever. Quanto a De Sica, vamos ao próximo post.